
Fuente: https://commons.wikimedia.org/
read it in English
leer en español
Alguns símbolos atravessam culturas e séculos sem perder sua essência. O lírio — a fleur-de-lis — é um deles. Presente em antigas civilizações e tradições espirituais, encontrou um lar vivo em Nova Orleans, cidade de água, calor e memória.
O lírio não cresce em solo limpo. Ele nasce da lama, em margens onde terra e água se misturam. Sua pureza não é ausência de dificuldade, mas a capacidade de buscar a luz em meio à adversidade. É a perseverança em sua forma mais silenciosa.
Em Nova Orleans, a fleur-de-lis não é apenas decorativa. É um emblema vivo de resiliência, pertencimento e continuidade. Após a devastação, a cidade a adotou como símbolo de sobrevivência, de comunidade que se reconstrói com paciência, ritmo e esperança. Não promete perfeição, mas a decisão de permanecer.
Migrar ensina lições semelhantes. O crescimento raramente é linear ou visível. Exige disciplina, confiança e capacidade de resistência. Como na costa oriental da Venezuela, de onde minha família vem, onde sol, sal e água ensinam que viver plenamente exige enfrentar tempestades e aceitar o imprevisível. Como o lírio, não florescemos apesar da lama, mas porque aprendemos a viver nela.
A fleur-de-lis tornou-se metáfora pessoal: construir sentido sem negar o passado, alcançar conquistas sem esquecer o esforço que as tornou possíveis, habitar uma identidade de fragilidade, força e propósito. Perseverança e resiliência não são gestos heroicos; são escolhas diárias.
Como o lírio, continuamos crescendo. Não porque o terreno seja limpo, mas porque a lama, quando compreendida, também nutre.