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Gente que Cuenta

Um perrengue,
por Luli Delgado

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Rembrandt,
Mulher doente com touca branca, (1641-1642)
Fonte: https://www.wikiart.org/

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        É a primeira coisa que a gente pensa e a primeira coisa que os outros dizem: «bom, dos males, o menor».

Mas experimente acordar com essa garganta arranhando e o corpo pedindo socorro, para você ver. Vai durar uma semana, vai passar, não é nada que não se cure; além do mais, para qualquer um que você contar, vão te responder com outra história. Que se o chá de gengibre com limão, que se o caldo milagroso, que se a vizinha ficou um mês assim. Tudo é verdade, mas enquanto você está com ela, é como se o mundo fosse acabar.

Os olhos choram o que você não chorou em anos —os analistas sobre isso sempre têm seu parecer—, e o corpo dói como se tivessem te dado a surra que você nem lembra de ter levado, tudo regado a espirros que estremecem até a alma. Sem falar da tosse, que vale por todos os abdominais que você deixou de fazer durante o ano, e bobear até mais. É como uma tempestade passageira: você sabe que vai passar, mas enquanto está no meio dela…

E olha que na sexta-feira fui me vacinar contra a gripe. O que não sei é se a enfermeira se enganou e me aplicou a vacina «a favor», porque no domingo já acordei sem conseguir me levantar da cama.

A única coisa boa é que, como ontem à noite eu não tinha sono, mas também não aguentava a luz do celular, resolvi ouvir um podcast. Escolhi no «uni-duni-tê» e apareceu um senhor que eu recomendo: Néstor Armando Alzate, que primeiro falou da Odisséia, depois do calendário gregoriano e, por fim, das mensagens de Fátima. Não eram episódios curtos, mas, como eu disse, eu estava sem sono. Enfim.

Eu queria escrever para vocês um tratado sobre como estou me sentindo, mas acho que é igual à dor de dente: por mais que você tente explicar, é impossível. Ah, mas basta mencionar para todo mundo saber exatamente do que se trata.

Meu pai dizia que sem remédio se cura em uma semana, e com remédio, em oito dias. É o que tem acontecido comigo das outras vezes. Mas isso sim: me lembrem disso quando me ligarem de novo por causa da vacina. A minha, podem pegar!

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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