
Taverna, c. 1909
Fonte: https://www.wikiart.org/
O Salão do Interlúdio, para a surpresa de muitos, tinha uma filial que parecia um clássico boteco carioca, com mesa de plástico amarela e calçada de esmeralda. Ali, os espíritos que aguardavam a reencarnação matavam o tempo jogando sinuca e reclamando das “aulas de reflexão”.
“Rapaz, eu não aguento mais o professor Orion”, resmungou Aurora, empurrando um copo de plasma que imitava cerveja preta. “A gente passa duas horas na Revisão da Vida e ele vem com: ‘Veja bem, como aquela fofoca afetou o carma da dona Neném’. Pô, era só um comentário sobre o feijão dela!”
Valdir, um espírito que na Terra tinha sido taxista, deu uma risada alta enquanto limpava o giz no taco. “Discute com o Conselho não, minha filha. Eu tentei dar um migué na prova de desapego e os Anciãos me mandaram de volta para o repouso e cura. Fiquei três eras flutuando numa névoa cósmica que parecia um spa. Uma calmaria que dá até nervoso! Saudade de um engarrafamento.”
“Pior sou eu”, entrou na conversa Julinho, o caçula do grupo, que ainda usava o boné de sua última passagem pela Terra. “Fui inventar de pedir um desafio nível avançado na escola espiritual. Os mentores me deram um plano de estudos de três séculos só sobre paciência. Agora vou ter que reencarnar como filho caçula de uma família com doze irmãos, no calor do Bangu, sem ar-condicionado. Já tô até vendo o perrengue.”
Aurora riu, sentindo o cansaço da última vida finalmente evaporar naquela resenha. “Pois eu acho que vou pedir para ser mãe de gêmeos. Se é para transmutar a impaciência, que seja no modo ‘hardcore‘.”
Nisso, uma sineta de ouro ecoou no bar. Era o chamado para a próxima aula com os mentores. Aurora se levantou, bateu a poeira cósmica da calça e piscou para os amigos: “Bora lá ver o impacto kármico do nosso papo furado. O dever nos chama!”