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Alfredo Behrens

No grito,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 268c

No grito,
por Alfredo Behrens

leer en español         Ao completar cem anos, ela celebrou o fato de ser vinte anos mais velha que o marido, que mal havia conseguido chegar aos noventa. Ele pedia desculpas pela diferença todas as manhãs, como se a idade fosse um erro de aritmética- Então, ele adoeceu. Seus sintomas eram peculiares. Toda terça-feira, ele perdia uma década. Na quinta-feira, insistia que o teto virado tapete. Os médicos receitavam guarda-chuvas, mas apenas para os móveis, contra os quais ele levantava a perna direita e se aliviava, como o cachorro Totô. Ela o observava com uma impaciência crescente, suspirado que "A gente chega ao centenário esperando menos responsabilidades, não mais." Foi assim que ela o acomodou em uma casa de repouso respeitável, onde os corredores faziam curvas educadas e...
A juro,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

A juro,
por Alfredo Behrens

ler em português        Al cumplir cien años, ella celebró ser veinte años mayor que su marido, quien apenas había logrado llegar a los noventa. Él le pedía disculpas por la diferencia todas las mañanas, como si la edad fuera un simple error de aritmética.Entonces, él se enfermó.Sus síntomas eran raros. Cada martes perdía una década. El jueves insistía en que el techo se había vuelto alfombra. Los médicos le recetaban paraguas, pero solo para los muebles, contra los cuales él levantaba la pata derecha y se aliviaba, tal cual el perro Totó.Ella lo observaba con un fastidio creciente, suspirando: «Uno llega al centenario esperando menos responsabilidades, no más».Así fue como terminó acomodándolo en una residencia de ancianos decente, donde los pasillos daban curvas educadas en esquinas que ...
Fúria feminina, por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 266b

Fúria feminina, por Alfredo Behrens

leer en español        Cruzaram a fronteira sob a proteção da noite, vinte homens armados apenas com o que vestiam, deixando para trás um país que os havia transformado em fugitivos por defenderem uma causa que seus perseguidores não estavam dispostos a tolerar. Do outro lado, um governo de ideias semelhantes os esperava, embora isso não fosse suficiente para torná-los bem-vindos em cada canto do território.Ao amanhecer, chegaram a um pequeno vilarejo, daqueles que vivem alheios às disputas travadas além de seus limites. Seus habitantes simpatizavam em silêncio com a causa dos recém-chegados, mas o silêncio era, precisamente, sua forma de sobreviver: não queriam ver nem ser vistos por nenhum lado. Apenas o pároco, movido por uma compaixão que não media consequências, abriu-lhes as portas d...
Furia femenina, por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Furia femenina, por Alfredo Behrens

ler em português        Cruzaron la frontera al amparo de la noche, veinte hombres armados apenas con lo que llevaban puesto, dejando atrás un país que los había convertido en fugitivos por defender una causa que sus perseguidores no estaban dispuestos a tolerar. Del otro lado los esperaba un gobierno de ideas afines, aunque eso no bastaba para hacerlos bienvenidos en cada rincón del territorio.Al amanecer llegaron a un pueblo pequeño, de esos que viven ajenos a las disputas que se libran más allá de sus límites. Sus habitantes simpatizaban en silencio con la causa de los recién llegados, pero el silencio era, precisamente, su forma de sobrevivir: no querían ver ni ser vistos por ningún bando. Solo el párroco, movido por una compasión que no medía consecuencias, les abrió las puertas del t...
Horóscopo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 264b

Horóscopo,
por Alfredo Behrens

leer en español        Eu estava desorientado, naquele estágio em que a gente folheia o jornal até a página do horóscopo enquanto toma um café numa mesa de calçada, sem realmente ler, só esperando que a tinta dissesse algo que o dia ainda não tinha se dado ao trabalho de contar. Essa senhora estranhamente vestida apareceu do nada, e digo isso literalmente — num segundo a cadeira à minha frente estava vazia, no outro tinha uma mulher com um casaco costurado de umas cem tecidos diferentes, cada retalho de uma década de moda distinta, como se ela tivesse saqueado um acervo de figurinos e vestido tudo ao mesmo tempo, em camadas, feito sedimento.Ela não perguntou se o lugar estava ocupado. Simplesmente sentou, cruzou as mãos e olhou para o meu jornal do jeito que um joalheiro olha para uma pedr...
Horóscopo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Horóscopo,
por Alfredo Behrens

ler em português          Estaba desorientado, en esa etapa en la que uno hojea el periódico hasta la página del horóscopo mientras toma un café en una mesa de la calle, sin leer de verdad, solo esperando que la tinta dijera algo que el día todavía no se había molestado en contar. Esta señora, vestida de una forma rarísima, apareció de la nada, y lo digo literalmente — un segundo la silla frente a mí estaba vacía, al siguiente había una mujer con un abrigo cosido de como cien telas distintas, cada retazo de una década diferente de moda, como si hubiera saqueado un archivo de vestuario y se lo hubiera puesto todo junto, en capas, como sedimento. No preguntó si el asiento estaba ocupado. Simplemente se sentó, cruzó las manos y miró mi periódico como mira un joyero una piedra antes de dec...
Nonsense,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 263b

Nonsense,
por Alfredo Behrens

leer en español        Lá fora, a chuva caía para cima, lavando o céu de suas manchas de melancolia. As pessoas caminhavam de mãos dadas com seus fantasmas de estimação, celebrando o fato de que, naquele dia, a gravidade tinha decidido tirar férias e agora todos flutuavam a dez centímetros do solo, apenas por cortesia. A normalidade era um conceito que havia morrido de tédio numa gaveta trancada, e ninguém, absolutamente ninguém, sentia falta do cheiro de café passado às pressas. O mundo, finalmente, fazia o sentido perfeito que só a insanidade pode oferecer.Na esquina da Rua das Coisas Esquecidas, um homem de meia-idade tentava convencer os vizinhos de que tudo aquilo era, na verdade, uma falha de manutenção do universo — algo que alguém, em algum departamento competente, certamente resol...
Disparate,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Disparate,
por Alfredo Behrens

ler em português         Afuera, la lluvia caía hacia arriba, lavando el cielo de sus manchas de melancolía. Las personas caminaban de la mano con sus fantasmas de compañía, celebrando el hecho de que, ese día, la gravedad había decidido tomarse vacaciones y ahora todos flotaban a diez centímetros del suelo, solo por cortesía. La normalidad era un concepto que había muerto de aburrimiento en un cajón bajo llave, y nadie, absolutamente nadie, extrañaba el olor al café hecho de prisa. El mundo, finalmente, tenía el sentido perfecto que solo la locura puede ofrecer.En la esquina de la Calle de las Cosas Olvidadas, un hombre de mediana edad intentaba convencer a los vecinos de que todo aquello era, en realidad, una falla de mantenimiento del universo —algo que alguien, en algún departamento co...
Topografias do desejo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 260c

Topografias do desejo,
por Alfredo Behrens

leer en español        Camilo José Cela, o Nobel espanhol cuja prosa arrancava a casca da boa sociedade, confessou certa vez que imaginava o inferno como um lugar desprovido de seios femininos. Não era uma declaração teológica. Era estética — a de uma sensibilidade mediterrânea masculina que havia passado séculos contemplando a forma humana e chegado à sua própria hierarquia de maravilhamento.As culturas do Rio da Prata são, em muitos sentidos, as mais espanholas das Américas. Receberam de forma direta o olhar ibérico, o senso ibérico do que merece um segundo olhar. E assim, conta-se, uma jovem saindo da praia em Punta del Este alcança instintivamente a parte de cima do biquíni antes de se embrenhar pela multidão, enquanto o sol seca o que o Atlântico deixou para trás.Cruze a fronteira par...
Topografías del deseo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Topografías del deseo,
por Alfredo Behrens

ler em português        Camilo José Cela, el Nobel español cuya prosa arrancaba la costra de la buena sociedad, confesó una vez que imaginaba el infierno como un lugar desproveído de senos femeninos. No era una declaración teológica. Era estética: la de una sensibilidad mediterránea masculina que había pasado siglos contemplando la forma humana y había llegado a su propia jerarquía del asombro.Las culturas del Río de la Plata son, en muchos sentidos, las más españolas de las Américas. Recibieron de forma directa la mirada ibérica, el sentido ibérico de lo que merece una segunda mirada. Y así, según se cuenta, una joven que sale de la playa en Punta del Este se acomoda instintivamente la parte de arriba del bikini antes de adentrarse en la multitud, mientras el sol seca lo que el Atlántico ...
O homem garrafa,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 257c

O homem garrafa,
por Alfredo Behrens

leer en español         Há uma praça perto daqui onde os aposentados passam as manhãs como se o tempo fosse uma substância que precisa ser gasta com cuidado, em pequenas doses. Alguns alimentam pombos com uma generosidade que nunca tiveram com seus subordinados. Outros jogam cartas em mesas de cimento, com a concentração de quem um dia assinou contratos importantes. No bar da esquina, um grupo ocupa as mesmas cadeiras todos os dias, com uma fidelidade que seus empregos nunca mereceram. Bebem devagar. Falam do que já passou.Entre eles há um que não bebe.Está sentado com os outros, divide a mesa e o ar da tarde, mas está em outro lugar. Enquanto os demais gesticulam com os copos, ele escuta com aquela quietude de quem tem para onde voltar. Seus companheiros não o entendem bem. Nunca entender...
El hombre botella,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El hombre botella,
por Alfredo Behrens

ler em português        Hay una plaza cerca de aquí donde los jubilados pasan las mañanas como si el tiempo fuera una sustancia que hay que gastar con cuidado, en pequeñas dosis. Algunos alimentan palomas con una generosidad que nunca tuvieron con sus subordinados. Otros juegan a las cartas en mesas de cemento, con la concentración de quien alguna vez firmó contratos importantes. En el bar de la esquina, un grupo ocupa las mismas sillas todos los días, con una fidelidad que sus empleos nunca merecieron. Beben despacio. Hablan de lo que ya pasó.Entre ellos hay uno que no bebe.Se llama Esteban, o algo parecido — en realidad, el nombre importa menos que sus manos. Está sentado con los demás, comparte la mesa y el aire de la tarde, pero está en otro lado. Mientras los otros gesticulan con los ...