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Alfredo Behrens

Topografias do desejo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 260c

Topografias do desejo,
por Alfredo Behrens

leer en español        Camilo José Cela, o Nobel espanhol cuja prosa arrancava a casca da boa sociedade, confessou certa vez que imaginava o inferno como um lugar desprovido de seios femininos. Não era uma declaração teológica. Era estética — a de uma sensibilidade mediterrânea masculina que havia passado séculos contemplando a forma humana e chegado à sua própria hierarquia de maravilhamento.As culturas do Rio da Prata são, em muitos sentidos, as mais espanholas das Américas. Receberam de forma direta o olhar ibérico, o senso ibérico do que merece um segundo olhar. E assim, conta-se, uma jovem saindo da praia em Punta del Este alcança instintivamente a parte de cima do biquíni antes de se embrenhar pela multidão, enquanto o sol seca o que o Atlântico deixou para trás.Cruze a fronteira par...
Topografías del deseo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Topografías del deseo,
por Alfredo Behrens

ler em português        Camilo José Cela, el Nobel español cuya prosa arrancaba la costra de la buena sociedad, confesó una vez que imaginaba el infierno como un lugar desproveído de senos femeninos. No era una declaración teológica. Era estética: la de una sensibilidad mediterránea masculina que había pasado siglos contemplando la forma humana y había llegado a su propia jerarquía del asombro.Las culturas del Río de la Plata son, en muchos sentidos, las más españolas de las Américas. Recibieron de forma directa la mirada ibérica, el sentido ibérico de lo que merece una segunda mirada. Y así, según se cuenta, una joven que sale de la playa en Punta del Este se acomoda instintivamente la parte de arriba del bikini antes de adentrarse en la multitud, mientras el sol seca lo que el Atlántico ...
O homem garrafa,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 257c

O homem garrafa,
por Alfredo Behrens

leer en español         Há uma praça perto daqui onde os aposentados passam as manhãs como se o tempo fosse uma substância que precisa ser gasta com cuidado, em pequenas doses. Alguns alimentam pombos com uma generosidade que nunca tiveram com seus subordinados. Outros jogam cartas em mesas de cimento, com a concentração de quem um dia assinou contratos importantes. No bar da esquina, um grupo ocupa as mesmas cadeiras todos os dias, com uma fidelidade que seus empregos nunca mereceram. Bebem devagar. Falam do que já passou.Entre eles há um que não bebe.Está sentado com os outros, divide a mesa e o ar da tarde, mas está em outro lugar. Enquanto os demais gesticulam com os copos, ele escuta com aquela quietude de quem tem para onde voltar. Seus companheiros não o entendem bem. Nunca entender...
El hombre botella,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El hombre botella,
por Alfredo Behrens

ler em português        Hay una plaza cerca de aquí donde los jubilados pasan las mañanas como si el tiempo fuera una sustancia que hay que gastar con cuidado, en pequeñas dosis. Algunos alimentan palomas con una generosidad que nunca tuvieron con sus subordinados. Otros juegan a las cartas en mesas de cemento, con la concentración de quien alguna vez firmó contratos importantes. En el bar de la esquina, un grupo ocupa las mismas sillas todos los días, con una fidelidad que sus empleos nunca merecieron. Beben despacio. Hablan de lo que ya pasó.Entre ellos hay uno que no bebe.Se llama Esteban, o algo parecido — en realidad, el nombre importa menos que sus manos. Está sentado con los demás, comparte la mesa y el aire de la tarde, pero está en otro lado. Mientras los otros gesticulan con los ...
O tempo interior,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 256d

O tempo interior,
por Alfredo Behrens

leer en español        Há algo de estranho acontecendo com o tempo. Não o tempo meteorológico, esse sempre foi imprevisível em Portugal, mas o tempo interno, esse rio que corre por baixo dos dias. Comecei a ouvir os pássaros. Não é que eles tenham chegado agora; estavam lá antes, é claro, mas a vida ia tão depressa que eu os atravessava sem escutá-los. Agora eles chegam pela janela como se tivessem algo a dizer. Os sinos da igreja também. Não lembro de tê-los ouvido durante anos, e hoje marcam as horas com uma firmeza que me parece quase pessoal.Já perdi alguns amigos. Não tantos quanto vou perder — isso eu sei, porque entrei nos meus setenta e poucos e a matemática começa a ficar severa. Cada partida deixa atrás de si uma pergunta que não consigo formular direito. Não é medo, exatamente. ...
El tiempo interno,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El tiempo interno,
por Alfredo Behrens

ler em português Hay algo extraño ocurriendo con el tiempo. No el tiempo atmosférico — ese siempre fue caprichoso, sino el tiempo interior, ese río que corre por debajo de los días. Empecé a escuchar los pájaros. No es que hayan llegado ahora; estaban antes, claro, pero la vida iba tan aprisa que los atravesaba sin oírlos. Ahora entran por la ventana como si tuvieran algo que decirme. Las campanas de la iglesia también. No recuerdo haberlas escuchado durante años, y hoy marcan las horas con una firmeza que me parece casi personal.Ya perdí a varios amigos. No tantos como voy a perder, eso lo sé, porque entré en mis setenta y tantos y la matemática empieza a ponerse severa. Cada partida deja atrás una pregunta que no logro formular del todo. No es miedo, exactamente. Es más bien curiosidad. ...
A Alfinetada,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 254b

A Alfinetada,
por Alfredo Behrens

leer en español       Existe um tipo particular de solidão que não parece solidão. Parece um velho amigo respondendo sua mensagem com um comentário pequeno e certeiro. Não exatamente hostil. Apenas um pouco desalentador. Um alfinete, não uma faca.Você conhece essa pessoa há quarenta anos. Existe uma história entre vocês — quartos divididos, fracassos compartilhados, o tipo de intimidade que só se acumula com décadas. E mesmo assim, em algum momento pelo caminho, o calor foi se rareando, e o que veio em seu lugar foi isso: um ruído de fundo de baixa intensidade, uma frieza em tom menor que deixa você vagamente inquieto sem lhe dar nada concreto para contestar.O que está acontecendo, geralmente, é uma história sobre papéis. As amizades longas tendem a atribuir a cada um uma posição no drama ...
El Aguijoneo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El Aguijoneo,
por Alfredo Behrens

ler em português        Existe un tipo particular de soledad que no parece soledad. Parece un viejo amigo respondiendo tu mensaje con un comentario pequeño y filoso. No exactamente hostil. Solo un poco desalentador. Un alfiler, no un cuchillo.Conoces a esta persona desde hace cuarenta años. Tienen historia juntos — cuartos compartidos, fracasos en común, el tipo de intimidad que solo se acumula con décadas. Y sin embargo, en algún momento del camino, el calor se fue adelgazando, y lo que vino a reemplazarlo fue esto: un ruido de fondo de baja intensidad, una frialdad en tono menor que te deja vagamente inquieto sin darte nada concreto para rebatir.Lo que está pasando, generalmente, es una historia sobre roles. Las amistades largas tienden a asignarle a cada uno una posición en el drama int...
Raízes de aluguel,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 253c

Raízes de aluguel,
por Alfredo Behrens

leer en español         Chega-se a um bairro estrangeiro sem história. Sem o peso acumulado de quem cresceu naquelas ruas, sem as referências que os outros carregam sem perceber — o nome do padeiro de sempre, o bar que fechou, a árvore que caiu na tempestade de 2011. Você é uma página em branco num livro já escrito.O pertencimento, quando vem, não chega por decisão. Chega por acumulação de pequenas coisas quase invisíveis.Primeiro são os rostos. Você começa a reconhecê-los sem ainda saber os nomes — o senhor que passa com o cão às oito da manhã, a mulher que fuma na janela do segundo andar, o rapaz da mercearia que já sabe que você prefere o pão de véspera. Não há conversa. Há apenas o reconhecimento mútuo de que existem, e de que existem aqui.Depois vêm as palavras. Breves, funcionais, se...
Raíces de alquiler,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Raíces de alquiler,
por Alfredo Behrens

ler em português          Se llega a un barrio extranjero sin historia. Sin el peso acumulado de quien creció en esas calles, sin las referencias que los demás cargan sin darse cuenta — el nombre del panadero de siempre, el bar que cerró, el árbol que cayó en la tormenta del 2011. Uno es una página en blanco en un libro ya escrito. La pertenencia, cuando llega, no llega por decisión. Llega por acumulación de cosas pequeñas, casi invisibles. Primero son las caras. Uno empieza a reconocerlas sin saber todavía los nombres — el señor que pasa con el perro a las ocho de la mañana, la mujer que fuma en la ventana del segundo piso, el chico del almacén que ya sabe que uno prefiere el pan del día anterior. No hay conversación. Solo el reconocimiento mutuo de que existen, y de que existen aq...
O último guardião,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 251c

O último guardião,
por Alfredo Behrens

leer en español        O quiosque da esquina é uma ilha de metal e vidro que sobrevive entre o trânsito. Vende o de sempre: cigarro, balas e revistas, mas o que sempre me deteve foi a placa desbotada sobre o balcão: "A serviço do jornalismo há um século". Numa manhã, enquanto buscava troco, perguntei ao quiosqueiro a origem de semelhante lema.Ele sorriu com uma mistura de orgulho e cansaço. Contou-me que seu bisavô paterno começou distribuindo jornais a cavalo, casa por casa. Depois, surgiu uma oportunidade numa jurisdição vizinha e seu outro bisavô a aproveitou, fundando uma rede de distribuição que uniu as duas famílias no negócio da tinta. "Sou o último da linhagem", disse ele, olhando para as pilhas de jornais que a cada dia minguam mais.No entanto, embora as vendas fracassem, sempre h...
El último guardián,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El último guardián,
por Alfredo Behrens

ler em português         El quiosco de la esquina es una isla de metal y vidrio que sobrevive entre el tráfico. Vende lo de siempre: tabaco, golosinas y revistas, pero lo que siempre me detuvo fue el letrero descolorido sobre la ventanilla: "Al servicio del periodismo desde hace un siglo". Una mañana, mientras buscaba cambio, le pregunté al quiosquero por el origen de semejante lema.Él sonrió con una mezcla de orgullo y cansancio. Me contó que su bisabuelo paterno empezó repartiendo periódicos a caballo, casa por casa. Luego, surgió una oportunidad en una jurisdicción vecina y su otro bisabuelo la aprovechó, fundando una red de distribución que unió a ambas familias en el negocio de la tinta. "Soy el último de la estirpe", me dijo, mirando las pilas de diarios que cada día merman más.Sin e...