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Alfredo Behrens

Não estamos sós,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 275b

Não estamos sós,
por Alfredo Behrens

leer en español         O café esfriava na xícara, mas a fumaça subia em espirais estranhas, desafiando a brisa leve que entrava pela janela. Caio ajustou os óculos e voltou a atenção para a tela do computador. Sentia o pescoço rígido, um arrepio incômodo que teimava em descer pela espinha. Ignorou. Apressado pelo trabalho, achava que era apenas o cansaço do fim de semana.Ele não os via, mas eles estavam lá.Não como monstros de filmes ou sombras aterrorizantes, mas como suspiros de memória que o mundo se recusava a apagar. Ao lado da estante, a figura sutil de Dona Cecília, a antiga moradora do imóvel, ajeitava com dedos invisíveis o vaso de cerâmica que Caio havia mudado de lugar. Ela não tinha pressa, tampouco raiva; apenas mantinha a rotina que cultivara por oitenta anos.Mais perto da p...
El eco de los pasos,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El eco de los pasos,
por Alfredo Behrens

ler em português        El café se enfriaba en la taza, pero el humo subía en espirales extrañas, desafiando la brisa leve que entraba por la ventana. Caio se ajustó los lentes y volvió su atención a la pantalla de la computadora. Sentía el cuello rígido, un escalofrío incómodo que se obstinaba en bajar por la espalda. Lo ignoró. Con prisa por el trabajo, pensó que solo era el cansancio del fin de semana.Él no los veía, pero ellos estaban ahí.No como monstruos de películas o sombras aterrorizantes, sino como suspiros de memoria que el mundo se negaba a borrar. Al lado del estante, la figura sutil de Doña Cecilia, la antigua residente del lugar, acomodaba con dedos invisibles el florero de cerámica que Caio había cambiado de sitio. No tenía prisa ni rabia; solo mantenía la rutina que había ...
Espelhos do tempo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 273b

Espelhos do tempo,
por Alfredo Behrens

leer en español        Durante anos vivi numa espécie de limbo suspenso. Lembro-me exatamente dessa época em que íamos comer e, ao chegar a conta, eu hesitava. Olhava para a bandeja de plástico sobre a mesa, olhava para o meu pai e não sabia se já me correspondia a mim tirar a carteira. O dia em que finalmente me antecipei, deslizei o meu cartão e paguei sem hesitar, senti um estalido silencioso dentro de mim. Foi o primeiro marco real da minha maturidade: já não era o protegido, mas sim o provedor.O tempo, no entanto, é um ilusionista trapaceiro. Passou depressa, envolto no vertigem dos relacionamentos, das convivências e dos filhos que foram nascendo deles. Ocupado em criar e sustentar, não tive tempo de me olhar ao espelho. Acreditava que envelhecer era um processo abstrato que aconteci...
Espejos del tiempo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Espejos del tiempo,
por Alfredo Behrens

ler em português        Durante años viví en una especie de limbo suspendido. Recuerdo exactamente esa época en la que íbamos a comer y, al llegar la cuenta, yo dudaba. Miraba la bandeja de plástico sobre la mesa, miraba a mi padre y no sabía si ya me correspondía a mí sacar la billetera. El día que finalmente me anticipé, deslicé mi tarjeta y pagué sin dudarlo, sentí un crujido silencioso dentro de mí. Fue el primer hito real de mi madurez: ya no era el protegido, sino el proveedor.El tiempo, sin embargo, es un prestidigitador tramposo. Pasó veloz, envuelto en el vértigo de las relaciones, las convivencias y los hijos que fueron naciendo de ellos. Ocupado en criar y sostener, no tuve tiempo de mirarme al espejo. Creía que envejecer era un proceso abstracto que les pasaba a otros, hasta aq...
A mesa compartilhada,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 271d

A mesa compartilhada,
por Alfredo Behrens

leer en español        Juan Pablo tinha o costume de devorar o seu almoço como quem apaga um incêndio. Quase todos os dias pedia comida rápida no escritório, desempacotava sobre o teclado e engolia hambúrgueres enquanto perseguia números em uma planilha. Para ele, afastar-se da tela era uma perda de tempo; acreditava firmemente que ficar grudado na sua mesa o tornava mais produtivo. Mas a realidade era outra. Chegava às três da tarde com o cérebro nublado, o estômago pesado e uma sensação constante de exaustão. Sem perceber, estava preso na armadilha do isolamento, uma rotina que a ciência equipara ao impacto de fumar quinze cigarros por dia.Tudo mudou na terça-feira em que sua colega Valeria parou ao lado da sua mesa e simplesmente lhe disse: "Deixe essa planilha um pouco, prepararam algo...
La mesa compartida,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

La mesa compartida,
por Alfredo Behrens

ler em português        Juan Pablo tenía la costumbre de devorar su almuerzo como quien apaga un incendio. Casi todos los días pedía comida rápida a la oficina, la desempacaba sobre el teclado y engullía hamburguesas mientras perseguía números en una hoja de cálculo. Para él, alejarse de la pantalla era una pérdida de tiempo; creía firmemente que quedarse clavado en su escritorio lo hacía más productivo. Pero la realidad era otra. Llegaba a las tres de la tarde con el cerebro nublado, el estómago pesado y una sensación constante de agotamiento. Sin darse cuenta, estaba atrapado en la trampa del aislamiento, una rutina que la ciencia equipara al impacto de fumar quince cigarrillos al día.Todo cambió el martes que su colega Valeria se paró junto a su lugar y simplemente le dijo: "Deja esa ho...
O que nos leva,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 270b

O que nos leva,
por Alfredo Behrens

leer en español        Um potro leva cerca de uma hora para disparar pelo campo após nascer, testando pernas ainda finas com uma precisão quase inacreditável. A girafa precisa de quase um dia inteiro para finalmente se equilibrar em suas torres vertiginosas. Na natureza, a urgência é a regra: ou você aprende a andar rápido, ou vira presa.Nós, humanos, nascemos pela metade. Somos frágeis, inacabados e totalmente dependentes. Levamos anos — e uma dose cavalar de paciência parental — para aprendermos a nos sustentar sobre as próprias pernas, decodificar o mundo e nos tornarmos autônomos. É uma lentidão quase absurda frente à eficiência do Reino Animal.Mas há algo de poético nessa nossa longa gestação fora do útero.Percebi isso hoje, ao observar um pai no parque. Ele empurrava um carrinho de b...
Lo que nos lleva,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Lo que nos lleva,
por Alfredo Behrens

ler em português        Un potrillo tarda apenas una hora en correr por el campo tras nacer, poniendo a prueba sus patas aún finas con una precisión casi increíble. La jirafa necesita casi un día entero para finalmente equilibrarse sobre sus torres vertiginosas. En la naturaleza, la urgencia es la regla: o aprendes a caminar rápido, o te conviertes en presa.Nosotros, los humanos, nacemos a la mitad. Somos frágiles, inacabados y totalmente dependientes. Nos toma años —y una dosis enorme de paciencia parental— aprender a sostenernos sobre nuestras propias piernas, decodificar el mundo y volvernos autónomos. Es una lentitud casi absurda frente a la eficiencia del Reino Animal.Pero hay algo poético en esta larga gestación nuestra fuera del útero.Me di cuenta de esto hoy, al observar a un padre...
Amor em fusos,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 269d

Amor em fusos,
por Alfredo Behrens

leer en español        Moram na mesma casa, mas já não vivem na mesma hora. Foi acontecendo devagar, como envelhecem as coisas boas. Ele adiantou o relógio do corpo sem consultar ninguém: o jantar às seis, mais tarde o sono chegando junto com os passarinhos que se aquietam no entardecer. É o canto miúdo dos tico-ticos que o embala.Ela pertence à noite como sempre pertenceu: lê até tarde, conversa com a casa às escuras. Ele adormece dorme de janelas abertas com o sol ainda morno na parede; ela chega ao seu tempo horas depois, como que atravessando o Atlântico doméstico.De madrugada os papéis se invertem. É ele quem desperta com a primeira claridade, quando os passarinhos retomam a conversa. No terraço, sob a brisa fria da noite ainda presa no ar, toma o café sozinho. Escreve até a fome inte...
Amor en husos, <br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Amor en husos,
por Alfredo Behrens

ler em português        Viven en la misma casa, pero ya no en la misma hora. Fue pasando despacio, como envejecen las cosas buenas. Él adelantó el reloj del cuerpo sin consultar a nadie: la cena a las seis, más tarde el sueño llegando junto con los pajaritos que se aquietan al atardecer. Es el canto menudo de los gorriones el que lo arrulla.Ella pertenece a la noche como siempre le perteneció: lee hasta tarde, conversa con la casa a oscuras. Él se duerme con las ventanas abiertas, con el sol todavía tibio en la pared; ella llega a su hora, horas después, como quien atraviesa el Atlántico doméstico.De madrugada los papeles se invierten. Es él quien despierta con la primera claridad, cuando los pájaros retoman la conversación. En la terraza, bajo la brisa fría de la noche todavía prendida en...
No grito,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 268c

No grito,
por Alfredo Behrens

leer en español         Ao completar cem anos, ela celebrou o fato de ser vinte anos mais velha que o marido, que mal havia conseguido chegar aos noventa. Ele pedia desculpas pela diferença todas as manhãs, como se a idade fosse um erro de aritmética- Então, ele adoeceu. Seus sintomas eram peculiares. Toda terça-feira, ele perdia uma década. Na quinta-feira, insistia que o teto virado tapete. Os médicos receitavam guarda-chuvas, mas apenas para os móveis, contra os quais ele levantava a perna direita e se aliviava, como o cachorro Totô. Ela o observava com uma impaciência crescente, suspirado que "A gente chega ao centenário esperando menos responsabilidades, não mais." Foi assim que ela o acomodou em uma casa de repouso respeitável, onde os corredores faziam curvas educadas e...
A juro,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

A juro,
por Alfredo Behrens

ler em português        Al cumplir cien años, ella celebró ser veinte años mayor que su marido, quien apenas había logrado llegar a los noventa. Él le pedía disculpas por la diferencia todas las mañanas, como si la edad fuera un simple error de aritmética.Entonces, él se enfermó.Sus síntomas eran raros. Cada martes perdía una década. El jueves insistía en que el techo se había vuelto alfombra. Los médicos le recetaban paraguas, pero solo para los muebles, contra los cuales él levantaba la pata derecha y se aliviaba, tal cual el perro Totó.Ella lo observaba con un fastidio creciente, suspirando: «Uno llega al centenario esperando menos responsabilidades, no más».Así fue como terminó acomodándolo en una residencia de ancianos decente, donde los pasillos daban curvas educadas en esquinas que ...