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Alfredo Behrens

A Alfinetada,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 254b

A Alfinetada,
por Alfredo Behrens

leer en español       Existe um tipo particular de solidão que não parece solidão. Parece um velho amigo respondendo sua mensagem com um comentário pequeno e certeiro. Não exatamente hostil. Apenas um pouco desalentador. Um alfinete, não uma faca.Você conhece essa pessoa há quarenta anos. Existe uma história entre vocês — quartos divididos, fracassos compartilhados, o tipo de intimidade que só se acumula com décadas. E mesmo assim, em algum momento pelo caminho, o calor foi se rareando, e o que veio em seu lugar foi isso: um ruído de fundo de baixa intensidade, uma frieza em tom menor que deixa você vagamente inquieto sem lhe dar nada concreto para contestar.O que está acontecendo, geralmente, é uma história sobre papéis. As amizades longas tendem a atribuir a cada um uma posição no drama ...
El Aguijoneo,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El Aguijoneo,
por Alfredo Behrens

ler em português        Existe un tipo particular de soledad que no parece soledad. Parece un viejo amigo respondiendo tu mensaje con un comentario pequeño y filoso. No exactamente hostil. Solo un poco desalentador. Un alfiler, no un cuchillo.Conoces a esta persona desde hace cuarenta años. Tienen historia juntos — cuartos compartidos, fracasos en común, el tipo de intimidad que solo se acumula con décadas. Y sin embargo, en algún momento del camino, el calor se fue adelgazando, y lo que vino a reemplazarlo fue esto: un ruido de fondo de baja intensidad, una frialdad en tono menor que te deja vagamente inquieto sin darte nada concreto para rebatir.Lo que está pasando, generalmente, es una historia sobre roles. Las amistades largas tienden a asignarle a cada uno una posición en el drama int...
Raízes de aluguel,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 253c

Raízes de aluguel,
por Alfredo Behrens

leer en español         Chega-se a um bairro estrangeiro sem história. Sem o peso acumulado de quem cresceu naquelas ruas, sem as referências que os outros carregam sem perceber — o nome do padeiro de sempre, o bar que fechou, a árvore que caiu na tempestade de 2011. Você é uma página em branco num livro já escrito.O pertencimento, quando vem, não chega por decisão. Chega por acumulação de pequenas coisas quase invisíveis.Primeiro são os rostos. Você começa a reconhecê-los sem ainda saber os nomes — o senhor que passa com o cão às oito da manhã, a mulher que fuma na janela do segundo andar, o rapaz da mercearia que já sabe que você prefere o pão de véspera. Não há conversa. Há apenas o reconhecimento mútuo de que existem, e de que existem aqui.Depois vêm as palavras. Breves, funcionais, se...
Raíces de alquiler,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Raíces de alquiler,
por Alfredo Behrens

ler em português          Se llega a un barrio extranjero sin historia. Sin el peso acumulado de quien creció en esas calles, sin las referencias que los demás cargan sin darse cuenta — el nombre del panadero de siempre, el bar que cerró, el árbol que cayó en la tormenta del 2011. Uno es una página en blanco en un libro ya escrito. La pertenencia, cuando llega, no llega por decisión. Llega por acumulación de cosas pequeñas, casi invisibles. Primero son las caras. Uno empieza a reconocerlas sin saber todavía los nombres — el señor que pasa con el perro a las ocho de la mañana, la mujer que fuma en la ventana del segundo piso, el chico del almacén que ya sabe que uno prefiere el pan del día anterior. No hay conversación. Solo el reconocimiento mutuo de que existen, y de que existen aq...
O último guardião,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 251c

O último guardião,
por Alfredo Behrens

leer en español        O quiosque da esquina é uma ilha de metal e vidro que sobrevive entre o trânsito. Vende o de sempre: cigarro, balas e revistas, mas o que sempre me deteve foi a placa desbotada sobre o balcão: "A serviço do jornalismo há um século". Numa manhã, enquanto buscava troco, perguntei ao quiosqueiro a origem de semelhante lema.Ele sorriu com uma mistura de orgulho e cansaço. Contou-me que seu bisavô paterno começou distribuindo jornais a cavalo, casa por casa. Depois, surgiu uma oportunidade numa jurisdição vizinha e seu outro bisavô a aproveitou, fundando uma rede de distribuição que uniu as duas famílias no negócio da tinta. "Sou o último da linhagem", disse ele, olhando para as pilhas de jornais que a cada dia minguam mais.No entanto, embora as vendas fracassem, sempre h...
El último guardián,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El último guardián,
por Alfredo Behrens

ler em português         El quiosco de la esquina es una isla de metal y vidrio que sobrevive entre el tráfico. Vende lo de siempre: tabaco, golosinas y revistas, pero lo que siempre me detuvo fue el letrero descolorido sobre la ventanilla: "Al servicio del periodismo desde hace un siglo". Una mañana, mientras buscaba cambio, le pregunté al quiosquero por el origen de semejante lema.Él sonrió con una mezcla de orgullo y cansancio. Me contó que su bisabuelo paterno empezó repartiendo periódicos a caballo, casa por casa. Luego, surgió una oportunidad en una jurisdicción vecina y su otro bisabuelo la aprovechó, fundando una red de distribución que unió a ambas familias en el negocio de la tinta. "Soy el último de la estirpe", me dijo, mirando las pilas de diarios que cada día merman más.Sin e...
Taxista do aeroporto,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 248d

Taxista do aeroporto,
por Alfredo Behrens

leer en español         A gente sai tonto do avião, e a felicidade é encontrar uma fila curta de táxis. Prefiro motoristas silenciosos. Mas não tive sorte. Mal me sentei, ele me perguntou se eu vinha a trabalho ou a passeio, e antes que eu respondesse já sabia, porque os que vêm a trabalho carregam a mesma bagagem cansada e o mesmo olhar sem janela. Bom, pelo menos não precisei responder.O sujeito dirigia como se a cidade fosse dele, o que de certo modo era, porque a conhecia de trás pra frente, e retomou a conversa. Contou que a irmã tinha estudado enfermagem à noite, que trabalhava no hospital municipal onde os pobres vão morrer e os ricos também, só que em quartos separados. Cruzamos uma avenida que atravessa a cidade de ponta a ponta e ele me disse que leva o nome de um presidente que ...
Taxista de aeropuerto,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

Taxista de aeropuerto,
por Alfredo Behrens

 ler em português        Uno sale mareado del avión, y la felicidad es encontrar una fila corta de taxis. Prefiero los choferes silenciosos. Pero no tuve suerte. Mal me senté, me preguntó si venía a trabajar o a visitar, y antes de que yo respondiera ya lo sabía, porque los que vienen a trabajar llevan el mismo equipaje cansado y la misma mirada sin ventana. Bien, por lo menos no tuve que responderle. El tipo conducía como si la ciudad fuera suya, que en cierto modo lo era, porque la conocía al revés, y retomó la conversación. Me contó que su hermana había estudiado enfermería en el nocturno, que trabajaba en el hospital municipal donde los pobres van a morir y los ricos también, solo que en cuartos separados. Cruzamos una avenida que atraviesa la ciudad de punta a punta y me dijo que llev...
Onde vai acabar?,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 247b

Onde vai acabar?,
por Alfredo Behrens

leer en españolOntem mesmo, ao escovar os dentes frente ao espelho percebi que a minha imagem ainda bocejava na cama. Xinguei o Ministro das Finanças, basta! Mas a minha voz não saiu senão uns segundos depois e não a reconheci, como quando a gente escuta a nossa voz gravada. Comecei a ficar preocupado. Decidi sair de casa e para desanuviar tomar o café da manhã na padaria. Mas a maçaneta, que sempre abria no sentido do relógio agora abriu no sentido contrário. Estava ficando mais esquisito. Na padaria, onde o Manuel sabia me dar sempre um pão na chapa com um café pingado, hoje nem parecia me reconhecer, e tive de pedir meu café da manhã para Rosa, para quem eu sempre piscava um olho, mas ela sorriu para o cara que estava detrás de mim na fila. Pior foi quando cheguei no escritório e tinha ...
¿Dónde acabará esto?,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

¿Dónde acabará esto?,
por Alfredo Behrens

ler em português        Justo ayer, mientras me cepillaba los dientes frente al espejo, noté que mi imagen seguía bostezando en la cama. Maldije al ministro de Hacienda: ¡ya basta! Pero mi voz no salió hasta unos segundos después, y no la reconocí, como cuando escuchas tu voz grabada. Empecé a preocuparme. Decidí salir de casa y, para despejarme, desayunar en la panadería. Pero el pomo de la puerta, que siempre abría en el sentido de las agujas del reloj, ahora abría en el sentido contrario. Cada vez era más raro. En la panadería, donde Manuel siempre sabía cómo darme un panecillo tostado con medio litro de café, hoy ni siquiera parecía reconocerme, y tuve que pedirle el desayuno a Rosa, a quien siempre le guiñaba el ojo, pero ella le sonrió al tipo que estaba detrás de mí en la fila. Peor...
O alfabeto de Manuel,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens, 246c

O alfabeto de Manuel,
por Alfredo Behrens

leer en español        Ele sentou-se perto da minha mesa com uma quietude resoluta. Os olhos azuis, embora cansados, carregavam uma névoa de desfoque, como se olhassem para dentro. Apresentei-me, e ele, com uma elegância simples, disse chamar-se Manuel.Aos 79 anos, a vida de Manuel era um mapa de ausências e presenças. Teve dois filhos; um deles partido cedo demais, aos cinco anos, em um acidente. O outro cresceu e lhe deu um neto de 29 anos, seu único herdeiro de histórias. Filho de agricultores, Manuel trocou a terra pelo fardamento quando foi enviado para Angola.Lá, sua arma era a comunicação. Ao notar um anúncio da cerveja BOCK sobre minha mesa, seus olhos brilharam por um instante. "Se eu tivesse que transmitir isso," explicou, "diria: Bravo, Oscar, Charlie, King. E entenderiam, como ...
El alfabeto de Manuel,<br/> por Alfredo Behrens
Alfredo Behrens

El alfabeto de Manuel,
por Alfredo Behrens

ler em português       Se sentó cerca de mi mesa con una quietud resuelta. Sus ojos azules, aunque cansados, llevaban una neblina de desenfoque, como si miraran hacia adentro. Me presenté, y él, con una elegancia sencilla, dijo llamarse Manuel.A los 79 años, la vida de Manuel era un mapa de ausencias y presencias. Tuvo dos hijos; uno de ellos se fue demasiado pronto, a los cinco años, en un accidente. El otro creció y le dio un nieto, hoy con 29 años, su único heredero de historias. Hijo de agricultores, Manuel cambió la tierra por el uniforme cuando fue enviado a Angola.Allí, su arma era la comunicación. Al notar un anuncio de la cerveza BOCK sobre mi mesa, sus ojos brillaron por un instante.—Si yo tuviera que transmitir esto —explicó— diría: Bravo, Oscar, Charlie, King. Y lo entenderían,...