
Fuente: https://pt.wikipedia.org/
Marta deixou o marido, filhos e netos e, leve e feliz, partiu para Finisterre.
No silêncio do consultório em penumbras, a Dra. Aris colocou um único fio sob o microscópio. O filamento era uma trepadeira oca repleta de faíscas douradas: vitalidade humana pura e destilada. Alimentava-se da cor da alma, deixando para trás apenas a casca cinzenta de uma vida “sensata”. Havia um eco de Victor Frankenstein em sua dúvida. Ela ergueu as pinças sobre a própria cabeça, mas a vaidade e a culpa lutaram até o impasse. Baixou a ferramenta, escolhendo o peso cinzento da memória. Mas o espécime morria no frasco de vidro. Ela ignorou o sangue de Marta; precisava de história. Em um momento de fria curiosidade, Aris encostou um filamento em sua própria têmpora. Sentiu um lampejo de seu sétimo aniversário — o cheiro da chuva sobre o asfalto — e, logo em seguida, a lembrança desapareceu, engolida pelo frasco.
Aterrorizada, ligou para o Comitê Central de Ética Médica. Um representante chamado Thorne chegou, cético e frio. Quando Aris explicou o roubo de memórias, os olhos de Thorne escureceram com ganância profissional. “Isso está muito além da sua jurisdição”, retrucou ele, guardando o espécime em uma maleta blindada com chumbo para levá-lo a uma estação de pesquisa de segurança máxima. Ele colocou a clínica em quarentena. Frustrada por ser escanteada — juntando-se à lista de mulheres como Rosalind Franklin cujas descobertas foram roubadas — Aris reagiu. Conseguiu uma entrevista na televisão tarde da noite, declarando que o envelhecimento era um parasita e que a “Trama” era um gravador biológico do “eu”.