
Fogos de artifício, s/f
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Não quero ser chata, nem a mosca da sopa, mas toda vez que chega dezembro me acontece a mesma coisa: tenho a sensação de que, assim que ele começa, a gente vira criança solta no recreio.
Gastamos mais dinheiro do que temos, descemos as caixas de enfeite, montamos a árvore, compramos coisa demais, corremos pra todo lado, tudo fica agitado. Comes e bebes como nunca, tudo dentro desse mesmo impulso infantil e coletivo de exagero, de permissão, de “agora pode tudo”. Parece uma espécie de loucura compartilhada, uma excitação geral.
Aí chega o dia 31 de dezembro. As mensagens de Ano-Novo. Os desejos. Paz e saúde, tudo bem, mas também prosperidade, dinheiro, abundância… como se a gente estivesse escrevendo de novo a cartinha pra Fadinha do dente, só pra não cutucar ferida religiosa. A gente deseja coisas que, lá no fundo, sabe que não vão acontecer do jeito que imagina, porque no dia 1º de janeiro as contas começam a vencer, tem que desmontar a árvore e voltar pra uma pilha de obrigações. A festa acaba.
Quando ontem à noite começaram os fogos, não consegui deixar de pensar como é profundamente comovente que uma simples mudança de data, combinada por todo mundo, consiga gerar tanta alegria, tanta expectativa, tanta descarga emocional.
Não falo isso com desprezo, nem de cima pra baixo. Pelo contrário: me impressiona essa inocência coletiva, essa capacidade de se iludir junto. Mas também me pergunto: o que acontece com a gente, como seres humanos, pra precisar todo ano desse tempo de recreio, de piñata, de suspensão da realidade?
E o que acontece depois, quando a piñata se quebra e não sobra mais nada lá dentro?
Talvez não seja ingenuidade. Talvez seja uma necessidade profunda de pausa, de permissão, de ilusão compartilhada.
A pergunta, pelo menos pra mim, não é se esse recreio coletivo é certo ou errado, mas o que a gente faz com a gente mesmo quando os fogos se apagam, quando o calendário anda e o corpo volta pra rotina.
Talvez aí tenha alguma coisa dentro de nós que valha a pena escutar.