
Un quiosco de periódicos en París, c. 1910
Fuente: https://www.1st-art-gallery.com/
O quiosque da esquina é uma ilha de metal e vidro que sobrevive entre o trânsito. Vende o de sempre: cigarro, balas e revistas, mas o que sempre me deteve foi a placa desbotada sobre o balcão: “A serviço do jornalismo há um século”. Numa manhã, enquanto buscava troco, perguntei ao quiosqueiro a origem de semelhante lema.
Ele sorriu com uma mistura de orgulho e cansaço. Contou-me que seu bisavô paterno começou distribuindo jornais a cavalo, casa por casa. Depois, surgiu uma oportunidade numa jurisdição vizinha e seu outro bisavô a aproveitou, fundando uma rede de distribuição que uniu as duas famílias no negócio da tinta. “Sou o último da linhagem”, disse ele, olhando para as pilhas de jornais que a cada dia minguam mais.
No entanto, embora as vendas fracassem, sempre há meia dúzia de homens postados junto ao balcão. Nem todos compram, mas todos conversam. Nisso, o quiosque segue cumprindo sua missão: é um repositório de notícias locais, um sismógrafo dos rumores do bairro.
O quiosqueiro sabe que seu negócio tem data de validade, mas o que realmente se perderá não será o papel, e sim o ponto de encontro. Seu fechamento deixará uma nostalgia semelhante à daquele velho samba carioca que chorava a chegada do progresso: Saudades da bica. Assim como quando a prefeitura instalou água encanada nas favelas e os vizinhos perderam a desculpa de fazer fila para trocar opinião, o desaparecimento do quiosque apagará o último refúgio onde os moradores paravam para tomar o pulso da vida no bairro.