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As meias são uma conspiração contra a sanidade. Quando você perde uma, na verdade perde três. A que desapareceu, claro. Sua parceira, condenada à inutilidade. E a terceira perda, a mais insidiosa: você fica sem saber o que fazer com a sobrevivente. Você poderia usá-la para limpar prata, você pensa. Você a guarda em alguma gaveta com essa intenção. Mas quando você finalmente precisa de um pano, essa meia também desapareceu nas profundezas do caos doméstico.
Naquela tarde, eu havia perdido outra. Uma boa, daquelas que não escorregam para dentro dos sapatos. Entrei na grande secadora, decidido a encontrá-la. Revisei cada canto, cada dobra do tambor metálico. Nada. Entrei mais, praticamente rastejando dentro da máquina, quando meus dedos tocaram algo frio no fundo. Uma alça.
Não deveria haver uma alça ali. Mas lá estava ela.
Puxei-a.
A porta se abriu para dentro e eu caí, rolando sobre um piso de linóleo brilhante. Levantei-me lentamente, tonto. Estava em um enorme armazém, com tetos tão altos que se perdiam na penumbra. Fileiras intermináveis de prateleiras metálicas se estendiam em todas as direções, cada uma repleta de roupas cuidadosamente dobradas. Meias, principalmente. Milhares delas, organizadas por cor, tamanho, textura. Cada pilha tinha uma pequena etiqueta com um nome escrito à mão.
“Martínez, Carlos”, “Da Silva, António”…
Caminhei pelos corredores, procurando meu sobrenome. O ar cheirava a detergente e a algo mais, algo antigo e esquecido. Finalmente encontrei: meu nome, em uma etiqueta amarelada. E lá estava minha meia, a que eu havia perdido naquela mesma manhã, perfeitamente dobrada ao lado de outras que eu havia esquecido há anos.
Aproximei-me para pegá-la quando uma voz ressoou de algum lugar:
“Você deve se identificar para retirar seus pertences”.
Olhei ao redor. Ninguém. Apenas as prateleiras infinitas.
“Meu nome está aqui”, disse, apontando para a etiqueta. “É minha meia”.
“Você deve apresentar um documento de identificação válido”.
Procurei nos bolsos. Vazios. Minha carteira, meu telefone, tudo tinha ficado do outro lado. Do lado real, ao lado da secadora.
“Ficou do outro lado”, expliquei para o nada. “Eu só entrei para pegar a minha meia”.
Silêncio.