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A gente sai tonto do avião, e a felicidade é encontrar uma fila curta de táxis. Prefiro motoristas silenciosos. Mas não tive sorte. Mal me sentei, ele me perguntou se eu vinha a trabalho ou a passeio, e antes que eu respondesse já sabia, porque os que vêm a trabalho carregam a mesma bagagem cansada e o mesmo olhar sem janela. Bom, pelo menos não precisei responder.
O sujeito dirigia como se a cidade fosse dele, o que de certo modo era, porque a conhecia de trás pra frente, e retomou a conversa. Contou que a irmã tinha estudado enfermagem à noite, que trabalhava no hospital municipal onde os pobres vão morrer e os ricos também, só que em quartos separados. Cruzamos uma avenida que atravessa a cidade de ponta a ponta e ele me disse que leva o nome de um presidente que ninguém lembra de ter elegido.
O taxista sempre pegava pelo lado esquerdo, contra o fluxo do trânsito, como se soubesse algo que os outros ignoravam. Anos depois usei o mesmo aplicativo, o mesmo trajeto e a mesma faixa da esquerda, mas com outro homem ao volante. Provavelmente a irmã enfermeira continua trocando lençóis no hospital municipal, ou talvez já tenha ido para Portugal como todos, ou talvez tenha acontecido algo com ela. Não perguntei. A gente não pergunta sobre as irmãs dos taxistas, assim como não pergunta por que a faixa da esquerda é sempre a mais rápida quando a gente descobre tarde demais.