
Lady Smith y sus hijos, 1787
Fuente: https://www.wikiart.org/
Esta semana, meu primo me mandou uma foto do Crema Paraíso de San Bernardino.
Para quem não é de Caracas: era uma sorveteira em formato de meia-lua onde vendiam uns sorvetes fora de série, que por sinal ainda existe.
Perdi a conta de quantas vezes a tia Carmelina nos levou para tomar lanche, o que para nós era sempre uma festa. Mas onde quero chegar: que idade teria a tia Car quando nos levava? Ela ainda trabalhava, dirigia, fazia compras e todas essas coisas que, depois que ficou doente, não pôde mais fazer.
O que não tenho claro é a idade dela naquela época. Para nós, era o de menos, nem pensávamos nisso. De cabeça, faço as contas: ela era um pouco menos de quarenta anos mais velha do que eu, e nessa época a gente devia ter seis, sete, oito anos. Se a calculadora não falha — ou melhor, se o meu raciocínio não falha —, ela devia estar na casa dos quarenta e poucos.
E, da tia Car, engato o pensamento nas minhas outras tias e nas mães que nos cercavam, tanto da família quanto das meninas da escola. Com certeza hoje sou mais velha do que elas eram naquela época, e já chegou a minha vez de levar a minha própria filha para tomar sorvete. Sou mais velha do que as freiras e as professoras da escola, que também eram outra referência feminina da nossa infância.
No entanto, ao lembrá-las, como a imaginação mergulha na minha infância, não consigo concebê-las em outro contexto no qual, invariavelmente, a criança não seja eu. Por exemplo, a minha mãe e a tia Car eram superunidas, mas sobre o que falavam? Como era ser adulta naquela época? Como eram entre si? No fim das contas, nós as víamos de fora, e elas eram simplesmente as professoras, as mães de outras meninas ou as tias infalíveis que nos levavam ao Crema Paraíso. Nunca nos detivemos para pensar em que tempestades, que ilusões ou que silêncios carregavam por dentro — essas coisas que os adultos sempre guardam a sete chaves para proteger as crianças, a mesma chave que me coube usar muito tempo depois. Talvez por isso hoje compartilho essa dúvida com vocês, certa de que vocês também vão se perguntar a mesma coisa.