
Autorretrato com a peste espanhola, 1919
Fonte: https://theyellowglovescom
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Ao chegar a casa, Martha ficou parada no corredor, reconhecendo o marido apenas como quem reconhece uma fotografia desbotada num livro de história. A conexão havia sido cortada; a trama havia desaparecido. E sem a trama, não restava nada que a ligasse ao fantasma do homem na poltrona.
Ela saiu da casa imediatamente; não suportava o cheiro do lugar. Martha foi para o parque, onde sabia que suas duas filhas, Claire e Elena, estariam brincando com seus netos. As filhas observaram com espanto. Martha não estava simplesmente sentada no banco; estava na grama, agachando-se facilmente para brincar com as crianças, sorrindo e rindo com uma graça felina. Claire e Elena se entreolharam, atónitas. “Mãe? O que aconteceu? O que está acontecendo?”, perguntou Claire. “Eu mudei”, respondeu Martha, com os olhos cristalinos. “Eu vou embora. Talvez não para sempre, mas preciso aproveitar a vida. Vou para Finisterre, em Portugal”. Claire piscou o olho maliciosamente. «Finisterre? É por causa daquele jovem pescador com quem tiveste um romance há quarenta anos?» Martha procurou na sua mente. Viu o rosto, mas não sentiu calor nem nostalgia. Era apenas um dado num livro fechado. «Não me importo com o pescador», disse Martha. «Vou porque lá a luz é honesta. Vou em direção ao sopro».