
American Gothic, 1930
Fuente: https://www.wikiart.org/
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Parte II
Quando a médica retirou o último centímetro do filamento do crânio de Martha, a sala pareceu vibrar. Martha arqueou as costas, sua respiração tornou-se um crescendo agudo e cristalino, e ela se desdobrou na cadeira em meio a uma profunda liberação de todo o corpo, como um orgasmo.
Saiu saltitante da clínica. O ar estava diferente: mais rico em oxigênio e doce como ozônio depois de uma tempestade. Cada respiração parecia alcançar seus dedos dos pés, que não sentiam o fluxo sanguíneo há anos. Enquanto caminhava pela calçada, o mundo notou. Homens que não a olhavam há décadas agora viravam a cabeça; um operário da construção civil parou seu martelo, e um homem de terno quase tropeçou, com os olhos fixos na aura vibrante e elétrica da mulher que passava. Quando chegou à porta de casa, a chave girou com um clique metálico satisfatório. A casa cheirava a café velho e jornais mofados. Da poltrona, Harold a chamou. Ele tinha setenta anos, cheirava a pomada de mentol e estava se decompondo lentamente. Martha estava parada no corredor, reconhecendo-o apenas como quem reconhece uma fotografia desbotada em um livro de história. A conexão estava rompida; o enredo havia desaparecido. E sem o enredo, não havia mais nada que a ligasse ao fantasma do homem na poltrona.