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Interior – sala de espera do consultório – dia
Sala quase cheia. Levanto-me para pegar uma garrafinha de água. A senhora que está na minha frente pegando um café se encarrega de gerenciar a minha operação com a máquina de vendas. Coloco a moeda, aperto um número e não acontece nada. A senhora, autonominada chefe oficial do projeto, começa a apertar todos os botões disponíveis. As pessoas na sala de espera, na falta de melhor entretenimento, acompanham a ação com total atenção. Passa uma auxiliar de enfermagem e intervém com atitude de usuária veterana. Nada. Aí eu pego outra moeda e, desta vez, funciona sem problemas. Só que, quando empurro a aba que me separa da minha garrafinha, oh, surpresa: encontro duas. Eu as tiro e pergunto para a agora plateia: “Alguém quer uma garrafinha de água?” Resposta unânime: “Como vai dar de presente, se é sua? Fique com ela e tome mais tarde”. Eu insisto e eles insistem, até que uma senhora se oferece para comprá-la de mim. “Não, senhora, eu te dou de presente!” “De jeito nenhum.” Aqui está, e me entrega a moeda. Aprovação geral. Fim da sequência.
De volta ao meu anonimato, analiso o que acabou de acontecer. Para mim, mão-aberta e sem cultura de previdência, dar uma garrafa de água não tem nada de mais. Por outro lado, para um português criado na realidade do pós-guerra e em um país pobre, cada centavo conta — não por mesquinharia, mas porque, por menor que seja, tem valor e é fruto de um esforço.
Lembro-me de um rapaz que veio nos entregar uma carga de lenha para a nossa lareira. Viajou não sei quantos quilômetros e a carregou feixe por feixe. Quando comentamos que era um grande esforço, ele nos respondeu: “É que cada migalha é pão”. Não existe a malandragem, o buscar tirar vantagem, o ganhar fácil e ainda por cima comemorar. Em Portugal, o nome do jogo é outro. Assim como a atitude é outra. Quando se pergunta a alguém se está tudo bem, respondem sem hesitar: “Tem que estar”.
É uma atitude admirável, de quem não está esperando que caia do céu nem se acha no direito de ter o que não trabalhou para conseguir. É gente correta, que me ensinaram a qualificar como “decente”.
Saí da consulta com a minha convicção renovada de que é neste país que eu quero viver. Inclusive, em vez de pedir um Uber para voltar, preferi esperar o próximo ônibus. Afinal, toda migalha é pão!