Gente que Cuenta

Breve feixe de luz,
por Fernando Carmino Marques

John Everett Millais Atril press
John Everett Millais,
Ophelia, (detalhe), 1851
Fonte: https://www.meisterdrucke.ie/

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       Olhou para mim e, como se procurasse atravessar as nuvens cinzentas que cobriam o céu, com meio sorriso virou lentamente a cabeça para a janela e disse: “Quando ali estiver, se me lá me aceitarem, na estrada sem fim, impassível do céu, verei melhor a arrogância dos homens, saberei conversar com o silêncio e sentirei o espírito da terra.” Como tinha os olhos quase fechados pensei que o cansaço a tinha deixado naquela orla onde o sono se confunde com o sonho e as ondas ao roçarem na areia gemem inconformadas com o fim da viagem. Sobre a mesa de cabeceira, do lado direito da cama onde estava deitada, a vela perfumada que em recente aniversário alguém lhe ofereceu hesitava entre extinguir-se e continuar a espalhar a indefinível fragância que me deu a ilusão que de um morno sol de fim de dia, irrompendo entre nuvens cinzentas que cobriam o céu, iria surgir o breve feixe de luz, lembrando-me como a “alma é grande e a vida pequena”.

Fernando Carmino Marques
Fernando Carmino Marques é Doutor em letras pela Universidade de Paris IV –Sorbonne. Traduziu e editou o estudo inédito de Pierre Hourcade sobre a poesia de Fernando Pessoa: "A Mais Incerta das Certezas", "Itinerário Poético de Fernando Pessoa" (Coleção “Ensaios” sobre Fernando Pessoa, "Tinta-da-china", Lisboa, 2016. É docente convidado na Universidade de Atenas e realiza cursos e palestras em universidades europeias e brasileiras sobre a poesia de Fernando Pessoa e "Como ensinar poesia a quem não gosta de ler". Como ficcionista publicou: "Sobre outra coisa ainda" (13 short stories), Coleção LPF 20, X11, Edições esgotadas, Porto 2018; "Neste sonho que sou de mim", Coleção LPF 20, X1, Edições esgotadas, Porto 2020. Como se de outro ela fosse, Edições esgotadas, Porto 2023. Fotografía: Oliver Perrin

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