Gente que Cuenta

Falando sério…,
por Luli Delgado

Amedeo Modigliani Atril press 1
Amedeo Modigliani,
Cabeza de mujer, 1915
Fuente: https://www.wikiart.org/

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        Eu era daquelas que iam ao parque todas as manhãs — corria, me alongava, mandava cem abdominais como se fosse nada. Nem lembro quando parei com isso. Talvez quando a gente se mudou pra cá. O fato é que, ingrato até dizer chega, meu corpo hoje parece o do Homem de Lata.

E não estou falando de uma dor específica, daquelas que te derrubam na cama. Estou falando daquele incômodo que aparece quando você faz só um pouquinho mais do que o habitual. Coisas simples: arrastar móveis, fazer uma faxina caprichada, mudar a rotina — e pronto, a conta chega.

Para completar, moro num país onde a terceira idade dá show. Vejo senhorzinhos subindo e descendo, fazendo compras, indo à farmácia… e ninguém reclama de nada. Ou são estoicos mesmo, ou ninguém pergunta.

A mim também não perguntam, sejamos honestos. Mas quem pergunta sou eu:
sou só eu que me sinto assim?
Ou todo mundo sente e ninguém fala nada?

Parece que, com o passar dos anos, certas coisas se vivem em silêncio. Mas, no meu caso, às vezes dói alto.

Já li que é normal: os músculos mudam, as articulações já não respondem igual, o corpo vai acumulando história. Mas também já vi gente garantir, cheia de certeza, que se você come não sei o quê, dorme não sei quanto e faz mais não sei o quê, chega aos 90 com energia de artista de circo.

Sinceramente? As pessoas ficam bem irritantes com esse assunto de idade, peso e cansaço.
“Mas é que você…” — e lá vem a lista: o que você come, o quanto você anda, o que faz, o que deixa de fazer.

Olha, eu fiz exercício como uma louca, dancei durante anos, fui magra — e sempre comi o que tive vontade a vida inteira. Não é agora que vou começar a contar calorias.

O que eu quero dizer é simples: ontem fiz uma faxina pesada na minha casa e hoje não aguento nem os braços nem as pernas. E que, quando cheguei a Portugal, há oito anos, um dia — na base da pura febre — virei do avesso o primeiro apartamento em que moramos, com seus bons 200 metros. E não senti absolutamente nada.

Talvez a pergunta não seja só sobre esforço físico. Porque cansaço tem de todo tipo, né? Dizem que o corpo fala. Pois o meu, como diria Lulucita, fala mais do que perdido quando aparece…

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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