
O sonho da razón produz monstros, 1799 Fonte: https://commons.wikimedia.org/
Ontem mesmo, ao escovar os dentes frente ao espelho percebi que a minha imagem ainda bocejava na cama. Xinguei o Ministro das Finanças, basta! Mas a minha voz não saiu senão uns segundos depois e não a reconheci, como quando a gente escuta a nossa voz gravada. Comecei a ficar preocupado. Decidi sair de casa e para desanuviar tomar o café da manhã na padaria. Mas a maçaneta, que sempre abria no sentido do relógio agora abriu no sentido contrário. Estava ficando mais esquisito. Na padaria, onde o Manuel sabia me dar sempre um pão na chapa com um café pingado, hoje nem parecia me reconhecer, e tive de pedir meu café da manhã para Rosa, para quem eu sempre piscava um olho, mas ela sorriu para o cara que estava detrás de mim na fila. Pior foi quando cheguei no escritório e tinha outro cara sentado na minha mesa. Parecia comigo, só que um par de anos antes, embora na mesa a foto era a da minha mulher. Quis gritar usurpador! Mas a voz não saiu senão quando a polícia já levava os dois para a delegacia, porque tentei pegar o usurpador pelo cangote, mas as mãos não respondiam, então cuspi ele. Juntos fomos para a delegacia, mas o usurpador repetia tudo o que eu dizia com uns segundos de atraso. Exquicito mesmo!