Gente que Cuenta

Janelas de luz,
por Fernando Carmino Marques

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Henri Matisse,
Flores no parapeito da janela, (1912-1913)
Fuente: https://www.wikiart.org/

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        Naquele dia não foi preciso regar a planta que num embrulho de ternura me ofereceste. Era pequena. Bastava juntar as mãos em forma de concha e acariciá-la para que ela sentisse o calor na raiz da alma. Nos dias e meses seguintes uma só palavra e as suas folhas tenras e verdejantes enchiam as janelas de luz. Era espantoso sentir como a planta que trazias embrulhada em ternura descobria o mínimo recanto da casa e como a lua, apesar da rua estreita e ruidosa, descia vermelha do céu e ali ficava conversando até que ambas bocejavam e a madrugada acordava. Depois, larga sombra que se espalha pela casa, o outono trouxe o silêncio que torna a alma das plantas mais pequenas. A lua, cansada da rua estreita e ruidosa, ficou mais distante no céu e as palavras, janelas de luz, esqueceram a planta que num embrulho de ternura um dia me ofereceste.

Fernando Carmino Marques
Fernando Carmino Marques é Doutor em letras pela Universidade de Paris IV –Sorbonne. Traduziu e editou o estudo inédito de Pierre Hourcade sobre a poesia de Fernando Pessoa: "A Mais Incerta das Certezas", "Itinerário Poético de Fernando Pessoa" (Coleção “Ensaios” sobre Fernando Pessoa, "Tinta-da-china", Lisboa, 2016. É docente convidado na Universidade de Atenas e realiza cursos e palestras em universidades europeias e brasileiras sobre a poesia de Fernando Pessoa e "Como ensinar poesia a quem não gosta de ler". Como ficcionista publicou: "Sobre outra coisa ainda" (13 short stories), Coleção LPF 20, X11, Edições esgotadas, Porto 2018; "Neste sonho que sou de mim", Coleção LPF 20, X1, Edições esgotadas, Porto 2020. Como se de outro ela fosse, Edições esgotadas, Porto 2023. Fotografía: Oliver Perrin
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