Gente que Cuenta

Ciganos,
por Luli Delgado

Vincent Van Gogh Atril press
Vincent van Gogh,
Campamento gitano con carros tirados por caballos, 1888
Fuente: https://commons.wikimedia.org/

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      Os ciganos da minha infância venezuelana eram simplesmente lugares-comuns. Pessoas que usavam argolas douradas, liam cartas, tocavam pandeiretas e dançavam ao redor do fogo. Junto com os vaqueiros, piratas e chapeuzinhos vermelhos, inspiravam todos os anos as nossas fantasias de Carnaval, mas ficava por aí.

Anos mais tarde, já morando no Brasil, vi um grupo do que me pareceram ciganos sentados numa calçada. Uma das mulheres tinha no colo uma menina linda de mais ou menos dois anos. Eu não sei de onde me veio o impulso, mas simplesmente lhe disse que, se ela me desse a menina, eu a criaria. Ela ficou me olhando, surpresa, e respondeu: “eu não teria coragem, senhora”. Naquele momento percebi que o que eu acabara de lhe propor era um completo disparate e que, afinal, se ela não tinha coragem, eu também não.

Agora, em Portugal, são mais fáceis de identificar. Não guardam nenhuma relação com o meu estereótipo infantil.

Aqui eu os tenho visto pelas ruas ou no metrô, sempre em grupos, e, pelo que entendo, quando um deles precisa ir ao hospital, vai cercado por toda a sua gente.

Um dos que mais tenho visto é um homenzinho muito, muito pequeno, que anda sempre com uma mulher bem mais velha do que ele, e chamam atenção porque estão sempre discutindo por alguma coisa.

O senhor desta casa resolveu batizá-lo de “João” e o cumprimenta efusivamente toda vez que o encontra. A mim, felizmente, ignora olimpicamente.

Semanas atrás montaram uma tenda enorme, cercada de trailers que lhes serviam de moradia. Eu, curiosa até a alma, entrei numa tarde para espiar. Anunciavam um show de dinossauros ao qual, na verdade, eu teria adorado ir, não fosse pelo horário. Enfim. Na janela de um dos trailers havia uma menininha que me contou, orgulhosa, que sua avó morava na casa rodante em frente. Muito linda também, mas desta vez me abstive de pedi-la em adoção…

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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