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Regressaste onde ninguém te esperava. As ruas mais largas deixavam-te perdido no labirinto de memórias que trazias contigo sem que o fio das recordações te levasse a parte alguma. O olhar intolerante de quem de soslaio te observava arrepiava-te a alma. Sentias-te irreconhecível, estranho, o outro que nunca julgaste poder vir a ser. Ao imaginar acariciar a inapreensível felicidade nunca pensaste vir a encontrar o que não esperavas. Sôfrega a cidade estendia-se horizontal e vertical engolindo o sonho dos homens, como a areia suga a mais breve gota de chuva. Mas tu, ingénuo que ainda acredita na beleza dos dias e na consciência dos homens, procuraste uma vez mais refúgio na fé dos poetas que sentem saudade do que não existe e fingem esquecer que o enredo da vida é não ter enredo. Da eterna esquina onde todos anseiam por encontrar o caminho, enxergaste o barco sem leme que espera o solitário viajante, e uma gaivota, leque de brancura entregue ao vento, deixou-te suspenso no nevoeiro do tempo.