
Imagem gerada por IA
Eu estava desorientado, naquele estágio em que a gente folheia o jornal até a página do horóscopo enquanto toma um café numa mesa de calçada, sem realmente ler, só esperando que a tinta dissesse algo que o dia ainda não tinha se dado ao trabalho de contar. Essa senhora estranhamente vestida apareceu do nada, e digo isso literalmente — num segundo a cadeira à minha frente estava vazia, no outro tinha uma mulher com um casaco costurado de umas cem tecidos diferentes, cada retalho de uma década de moda distinta, como se ela tivesse saqueado um acervo de figurinos e vestido tudo ao mesmo tempo, em camadas, feito sedimento.
Ela não perguntou se o lugar estava ocupado. Simplesmente sentou, cruzou as mãos e olhou para o meu jornal do jeito que um joalheiro olha para uma pedra antes de decidir se vale a pena lapidar.
“Você está lendo errado,” ela disse, batendo o dedo na coluna do horóscopo. “Todo mundo lê errado. Leem pra frente, como se fosse previsão. Não é. É um espelho voltado pro ontem.”
Perguntei o que ela queria dizer, mais por educação do que curiosidade, do jeito que a gente humora um estranho que já se sentou sem pedir licença.
“Tenta,” ela disse. “Lê o seu signo, mas pensa no que já aconteceu essa manhã. Vê se encaixa melhor pra trás do que pra frente.”
Olhei pra baixo. Câncer: Uma porta que você achava fechada vai te surpreender. Pensei na porta do café, escorada com um tijolo, e em como quase tinha sentado em outro lugar.
Quando levantei os olhos pra dizer que aquilo era absurdo, a cadeira estava vazia de novo. Sem casaco, sem passos, sem xícara que ela pudesse ter pedido. Só o jornal, e um cheiro fraco de algo como eletricidade estática, ou talvez chuva velha.
O garçom passou e perguntou se eu queria mais café. Perguntei quem tinha estado sentado na minha frente.
Ele disse que não tinha ninguém ali a manhã inteira.