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Gente que Cuenta

O guarda-roupa aberto,
por Luli Delgado

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Até hoje, não sou capaz de dormir com as portas do guarda-roupa abertas, porque a minha mãe garantia que os mortos entravam. Às vezes confesso que gostaria de fazer o teste para ver, mas não, é mais forte do que eu. Assim como é mais forte do que eu usar desentupidores de pia ou adubos de jardim, porque na minha infância corria a história de uma menininha que usou uma colher de veneno, mesmo já tendo lavado a colher, e acabou morrendo intoxicada. Massa crua de bolo dava dor de barriga. Isso eu sei que é mentira, porque já provei e não acontece nada. Aliás, eu dava para a minha filha ou para a minha própria mãe quando ela já estava velhinha, e não aconteceu nada com elas. Mas o que foi realmente patético foi quando nos contaram que um menino que morava na nossa rua comeu um frasco inteiro de aspirina infantil e ficou doente a ponto de nunca mais poder provar açúcar ou sal. Muitos anos depois, nós o encontramos em um casamento e ele nos disse que, na verdade, tinha nascido com um problema renal… mas, de qualquer forma, nós já tínhamos passado a infância inteira com pavor de aspirina. Eu nunca dei trabalho para comer, mas, segundo a minha mãe, tinha uma menininha que não queria almoçar e, do nada, começaram a nascer peninhas pretas nela; depois ela virou um urubu e teve que se contentar com os lixões. Mais tarde, descobri que no Brasil era veneno ativo comer manga com leite e que, se as crianças deixassem os chinelos com a sola para cima, as mães morriam. Andar para trás parava o tempo, embora para nós fosse pior, porque chamava o diabo. Outra de transcendência internacional era tomar banho depois de almoçar. Era morte garantida. Eu não vejo a minha filha acreditar em nada disso, mas também não me lembro de ter dito essas coisas para ela alguma vez. Talvez as crianças de hoje sejam menos ingênuas, sei lá. O fato é que, se entrarem no meu quarto na hora de eu dormir, podem apostar — que vão ganhar — que as portas do meu guarda-roupa vão estar fechadas…

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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