Skip to main content

Gente que Cuenta

Não estamos sós,
por Alfredo Behrens

Texto Alfredo Atril press
“Eles não pertenciam ao além-túmulo distante; habitavam as frestas do presente…”
Imagen generada por la IA

leer en español

O café esfriava na xícara, mas a fumaça subia em espirais estranhas, desafiando a brisa leve que entrava pela janela. Caio ajustou os óculos e voltou a atenção para a tela do computador. Sentia o pescoço rígido, um arrepio incômodo que teimava em descer pela espinha. Ignorou. Apressado pelo trabalho, achava que era apenas o cansaço do fim de semana.

Ele não os via, mas eles estavam lá.

Não como monstros de filmes ou sombras aterrorizantes, mas como suspiros de memória que o mundo se recusava a apagar. Ao lado da estante, a figura sutil de Dona Cecília, a antiga moradora do imóvel, ajeitava com dedos invisíveis o vaso de cerâmica que Caio havia mudado de lugar. Ela não tinha pressa, tampouco raiva; apenas mantinha a rotina que cultivara por oitenta anos.

Mais perto da porta, um vulto tênue e infantil corria em círculos, deixando um rastro de calor sutil no ar. Era o espírito de um menino que jogara bola naquele mesmo terreno no século passado, quando ali só existia terra e mato. Ele ria sem som, saltando por cima do sofá moderno.

Eles não pertenciam ao além-túmulo distante; habitavam as frestas do presente. Eram feitos de saudade, de histórias não contadas, de energia acumulada nas paredes de alvenaria.

Caio esticou os braços, bocejando. Por um segundo, sua mão atravessou o ombro de Cecília. Ele sentiu uma súbita queda de temperatura, um arrepio repentino na pele.

— Que frio esquisito — murmurou ele para a sala vazia.

Cecília sorriu, um gesto suave que desfez um pouco do cansaço visível no rosto do rapaz. Ela soprou de leve na nuca de Caio, não para assustá-lo, mas como quem diz “vá descansar”.

Caio piscou, sentiu uma paz repentina e inusitada dominar seu peito. Fechou o notebook, levantou-se e caminhou até a varanda. Ao olhar para a cidade iluminada lá fora, teve a nítida sensação de que nunca estava verdadeiramente sozinho. E não estava. A cidade respirava com os vivos, mas era mantida viva pela perpétua e invisível companhia dos que vieram antes.

Alfredo Behrens Atril press
Alfredo Behrens alcançou o grau de Ph.D. pela Universidade de Cambridge. Ele ensinou Liderança nas melhores escolas de gestão e foi publicado ou premiado por Harvard, Princeton e Stanford. Alfredo tem quatro filhas e, com a sua mulher Luli Delgado, mora no Porto, Portugal, desde 2018. Alguns dos seus livros podem ser adquiridos através da Amazon. alfredobehrens@gmail.com

Compartir en

    ¡Assine a nossa Newsletter!