Gente que Cuenta

Para onde voam as palavras, por Fernando Carmino Marques

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.Abel Grimmer
Torre de Babel (detalle)
~ ca.1600 Galerie de Jonckheere, Paris

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De que serve a um escritor ser inspirado se não dominar a língua? Entendo dominar a língua torná-la maleável à nossa vontade. E se há uma língua maleável essa é a língua portuguesa de rígida que é. Pesa sobre ela uma longa tradição de gramáticos conformistas e escritores sem génio que mais parecem amanuenses de óculos espessos, mangas de alpaca e pingo no nariz. Pesa também sobre ela um cardápio de poetas, tecnocratas e burocratas inimigos do talento e da imaginação. A língua só conhece as fronteiras de quem nunca saiu de casa ou de quem espreita pela janela a vida dos outros. Ao contrário das ideias, as palavras uma vez ditas voam não se sabe para onde. É por isso que todas as línguas são universais basta a gente querer que elas o sejam. Que eu esteja em Zanzibar, em Moçambique, no Brasil ou à sombra de um coqueiro em qualquer ilha de sonho eu ouço sempre a língua que quero. É por isso que todas as línguas são universais: é a minha.

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Fernando Carmino Marques é doutor em letras pela Universidade de Paris IV – Sorbonne. Publicou vários estudos sobre temas e autores portugueses e brasileiros, dos séculos XVI, XIX e XX. Traduziu e editou o estudo inédito de Pierre Hourcade sobre a poesia de Fernando Pessoa, A Mais Incerta das Certezas, Itinerário Poético de Fernando Pessoa (Coleção “Ensaios” sobre Fernando Pessoa, Tinta-da-china, Lisboa, 2016). Como ficcionista publicou Sobre outra coisa ainda (13 short stories) 2019 e Neste sonho que sou de mim, contos, 2021.
carmino@ipg.pt

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