Gente que Cuenta

A vista obesa,
por Luli Delgado (port)

Mujeres medievales Atril press
Mulheres fazendo macarrão, na oficina de Giovannino de Grassi, Itália, c.1390
Fuente: https://sites.nd.edu/

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        Eu resolvi que a melhor coisa que pode acontecer a alguém é desenvolver a capacidade de ter a “vista obesa”. É nisso que eu ando…

Dá para notar que ninguém passou o pano na casa? Pois que se note. Afinal, a poeira também não se ofende.

Foi embora sem agradecer? Pois que vá. As portas, até onde eu sei, não precisam de aplausos.

Faz tempo que não me liga? Pois que não ligue. O silêncio também tem direito de existir.

Houve uma época em que eu reparava demais nos detalhes. E, se formos ver bem, é uma perda de tempo… e de energia, que a esta altura a gente não está mais para desperdícios.

Mas tomar essa atitude não é tão fácil, porque implica desaprender a outra.

Eu tinha uma tia que pouco mais ou menos “enxaguava a água”. E agora me pergunto: e o que ela ganhou com isso? Porque limpa, o que se diz limpa… nem por isso ela tinha a vida resolvida.

Claro, uma coisa é não ter velas e outra muito diferente é ter tantas que acabem queimando o santo. O caminho do meio, esse lugar mítico de que todo mundo fala e quase ninguém visita.

Mas, queiramos ou não, a realidade acaba ganhando o jogo. E essa é a parte que ultimamente me deu para aceitar, embora nem sempre com elegância.

As coisas como elas são: nem vou voltar a pesar 50 quilos (e, francamente, nem sei se quero), nem vou acordar sem que me doa nada, nem a casa vai cair porque não está impecável, nem meus amigos vão deixar de ser amigos porque sumiram de vez em quando, ou porque eu também sumi — que tudo precisa ser dito.

E acreditem, não se trata de nenhum grito de guerra nem de uma doutrina de vida. Pelo contrário: é ver sem se espantar, ouvir sem se escandalizar e viver sem morder os lábios… que a gente já os apertou bastante.

Não sei se vou conseguir totalmente porque são muitos anos praticando o contrário, mas me parece que, a esta altura, já é hora de parar de olhar tanto. Não custa tentar…

 

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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