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Gente que Cuenta

O novo luxo,
por Luli Delgado

Philipp Franck Atril press
Philipp Franck,
Mujer con ramo de flores, 1927
Fuente: https://artvee.com/

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        Outro dia me apareceu no Instagram uma senhora falando com a convicção de quem acaba de descobrir a roda. Palavra mais, palavra menos, afirmava que o novo luxo é «invisível» e enriquece mais o usuário do que as marcas. Vejamos. Dizia a especialista que o verdadeiro luxo é ter um dia de semana às 11:00 da manhã disponível para fazer o que você quiser.

De acordo. Eu uso esse luxo para colocar em dia o sono atrasado de tantos e tantos anos ou, melhor dizendo — já que estamos falando de sono —, para realizar o meu de acordar na hora que bem entender, sem um despertador que me traga de volta para a rotina me puxando pelos cabelos. Mas isso é agora que posso. Durante anos não me restava outra opção a não ser levantar e dedicar o dia aos outros. E isso não veio por uma milagrosa «mudança de atitude» nem por alcançar a iluminação: veio com a idade. Os filhos crescem, você deixa de trabalhar formalmente, tem mais tempo para a casa e, aí sim, se dá ao luxo de se organizar como bem entender… ou de não se organizar, o que também vale.

Vejo a correria diária da minha filha e dos meus sobrinhos e me reconheço neles, porque eu também vivia com mais agenda do que tempo. Mas isso faz parte de uma fase da vida, como a época dos dentes de leite, a faculdade, ou aquele primeiro trabalho onde você acorda cedo, ganha pouco, mas exigem de você como se fosse o dono. Ou essa consolidação da sua carreira, que tanto te custou, mas que exige o mesmo de você.

A questão das marcas também não me parece algo que se resolva por decreto, porque é um assunto de simples gosto. Se você tem essa veia, acontece tanto aos vinte quanto aos oitenta; e se não teve, não teve e ponto final. Não é agora que vou começar a mudar.

O que eu acho que é realmente o novo luxo é a serenidade que a gente vai adquirindo com o tempo. Não me lembro de ser nem um pouco serena em anos anteriores, como não me lembro de ser paciente, nem de ser capaz de morder a língua e deixar passar. Esse sim é um luxo de alto padrão: a paz mental. É uma descoberta tão gostosa que, uma vez que você pega o gosto, é muito difícil abrir mão dela.

Enfim, acho que o novo luxo é o dos cabelos brancos, só que desse tem gente que não se dá conta porque não vem com filtro. Uma pena, porque vale a pena… e como vale!

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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