Gente que Cuenta

Hieráticos,
por Luli Delgado (port)

Anonimo Atril press
Viagens e aventuras de Magius Biblioteca Nacional de França, Departamento de Capturados e Fotografia, detalhe da miniatura n.° 9; Conclave e Audiência, 1578 Fonte: https://commons.wikimedia.org/

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        Eu sempre achei que hierático era simplesmente alguém que não se move. Algo como os soldadinhos britânicos que fazem guarda em frente ao palácio, ou aqueles homens pintados de prata que se plantam nas praças e ficam imóveis como se fossem de gesso. Para mim, isso era o hierático: a imobilidade perfeita.

Mas fui procurar no dicionário da Real Academia Espanhola e descobri que a palavra tem mais vida do que eu imaginava. Hierático não é apenas rígido ou inexpressivo; também pode significar algo sagrado, próprio de um rito ou de uma cerimônia.

E então fiquei pensando. Ficar parado não é nada fácil. Façam o teste para ver. Comigo acontece sempre a mesma coisa: quando me dizem “não se mexa”, a primeira coisa que começa a coçar é o nariz. Depois a orelha. Depois os olhos. E, se consigo resistir, de repente aparece uma conspiração universal de pequenas coceiras que se espalham pelo corpo inteiro, em aberta rebelião contra ficar imóvel. Agora imaginem um soldadinho, com joelhos que se cansam e um nariz que também deve coçar. Pobres criaturas!

Às portas do Palácio de Buckingham, pelo que vi na internet, os guardas precisam ficar completamente imóveis durante duas horas. Algo parecido acontece com a Guarda Suíça Pontifícia. Se o que querem é uma figura que não se mova, por que não colocam um soldadinho de chumbo, como os de antigamente? Ou um de cera. Ou até mesmo um encomendado aos chineses, que, já que sabem fazer bebês reborn tão perfeitos, nada lhes custaria mudar um pouco o modelo.

Continuei procurando e encontrei uma ilustração de 1578 que representa um conclave papal. Como vocês podem ver, em vez de um havia dois soldados de Castel Gandolfo: um de pé, mas numa posição muito mais razoável, e outro sentado do lado de fora — imagino que esperando a sua vez. Vá lá…
Que depois não reclamem se acabarem ficando escassos de soldados.

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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