
Misterio y melancolía de una calle, 1914
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Há algo de estranho acontecendo com o tempo. Não o tempo meteorológico, esse sempre foi imprevisível em Portugal, mas o tempo interno, esse rio que corre por baixo dos dias. Comecei a ouvir os pássaros. Não é que eles tenham chegado agora; estavam lá antes, é claro, mas a vida ia tão depressa que eu os atravessava sem escutá-los. Agora eles chegam pela janela como se tivessem algo a dizer. Os sinos da igreja também. Não lembro de tê-los ouvido durante anos, e hoje marcam as horas com uma firmeza que me parece quase pessoal.
Já perdi alguns amigos. Não tantos quanto vou perder — isso eu sei, porque entrei nos meus setenta e poucos e a matemática começa a ficar severa. Cada partida deixa atrás de si uma pergunta que não consigo formular direito. Não é medo, exatamente. É mais curiosidade. Camus escreveu que há apenas um problema filosófico realmente sério. Camilo Cela tinha uma visão mais carnal do assunto: disse, com a precisão brutal que lhe era característica, que o inferno deve ser um lugar sem seios — apenas obeliscos. Há nessa imagem uma tristeza cômica que me parece honesta. O que nos falta não é a eternidade; é a textura do mundo.
Fico pensando no que os meus amigos estão vendo agora. Se estão vendo algo. Se a escuridão que imaginamos é apenas outra metáfora pobre, como tantas que usamos para o que não conhecemos. E penso também que, um dia, eu verei — ou não verei — a mesma coisa. Enquanto isso, os pássaros cantam. Os sinos batem. E eu, que antes não os ouvia, aprendo aos poucos que talvez prestar atenção seja a única forma de preparação possível.