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Com ou sem razão, o domingo voltou.
É que, seja como for, e com tudo o que aconteceu esta semana na Venezuela, o domingo continua chegando, mesmo que os dias tenham parecido eternos. Continua sendo aquela pausa que inventamos entre uma semana e outra para tomar um café com calma, não fazer nada importante e estar tudo bem que seja assim. Às vezes é difícil respirar com tranquilidade, ou já nem sabemos em que dia estamos vivendo, mas o domingo chega da mesma forma.
Embora o mundo grande esteja difícil. Enquanto meio planeta espera com ansiedade os jogos da Copa do Mundo e a vida parece ser jogada em uma tela, e embora haja pessoas que esperam que a paz chegue depois e apesar de tudo; em sua bolhinha, para minha sobrinha Ângela os dias também parecem eternos na contagem regressiva de uma gravidez que teve as suas lutas. Ela espera a sua menina junto a tantas outras mulheres que darão à luz muito em breve. Ainda há uma vida nova por vir, uma história por estrear, um berço esperando. E há algo nisso que parece quase um ato de fé: trazer alguém ao mundo, mesmo agora, mesmo assim. E algum dia contarão a essas meninas o que acontecia quando elas chegaram, do mesmo jeito que contavam para a minha mãe, que nasceu em 1918, em plena gripe espanhola.
Não é que eu queira ou possa me desligar do que está acontecendo. É que sinto que a vida não pede licença para continuar, ou para de repente parar; e se estamos no privilegiado primeiro grupo, o mais valente é deixá-la seguir.
Ainda assim, então, resta a enorme gratidão, venezuelanos ou vindos de fora, a quem tem ajudado. E a esperança de que o país terminará por ressurgir, embora agora a sintamos pequena e frágil.
E o mais importante de tudo, sinto que é o aprendizado que nos fica de tragédias como a desta semana: deixar para depois não vale a pena, porque não sabemos se contamos com esse depois.
As pessoas que nos deixaram fizeram-no com a rapidez de um estalar de dedos, deixando um espaço difícil de preencher. A eles, as minhas orações e as de muitos de nós pelo seu descanso eterno. Quem fica ainda tem uma chance. É bom sabermos aproveitar. É que, ao contrário do que pensamos, o depois realmente não nos pertence…