Gente que Cuenta

Nonsense,
por Alfredo Behrens

Hendrick Fromantiou Atril press
Hendrick Fromantiou,
Ilusión óptica, 1666
Fuente: https://commons.wikimedia.org/

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        Lá fora, a chuva caía para cima, lavando o céu de suas manchas de melancolia. As pessoas caminhavam de mãos dadas com seus fantasmas de estimação, celebrando o fato de que, naquele dia, a gravidade tinha decidido tirar férias e agora todos flutuavam a dez centímetros do solo, apenas por cortesia. A normalidade era um conceito que havia morrido de tédio numa gaveta trancada, e ninguém, absolutamente ninguém, sentia falta do cheiro de café passado às pressas. O mundo, finalmente, fazia o sentido perfeito que só a insanidade pode oferecer.

Na esquina da Rua das Coisas Esquecidas, um homem de meia-idade tentava convencer os vizinhos de que tudo aquilo era, na verdade, uma falha de manutenção do universo — algo que alguém, em algum departamento competente, certamente resolveria até segunda-feira. A flutuação, pelo menos, tinha a decência de admitir que era temporária. Um cachorro latia à distância.

As casas tinham trocado de lugar durante a noite, e ninguém se surpreendeu: já estávamos acostumados a acordar em vidas que não reconhecíamos completamente, em corpos que envelheciam mais rápido do que os planos que fazíamos para eles. A confusão das portas era, no fundo, só uma metáfora mais honesta do que costumávamos admitir em voz alta.

Mesmo assim, uma mulher vendia, de porta em porta, certezas usadas — restos de convicções que outras pessoas haviam abandonado quando a vida lhes ensinou o contrário. Os vizinhos compravam por hábito, sabendo que não durariam. Era reconfortante, de um jeito cansado, ter algo em que fingir crer, mesmo sabendo o preço da mentira.

No alto da torre, o sino badalava horas que já não serviam a ninguém, porque o tempo, há muito, tinha parado de cobrar pontualidade. O cachorro continuava a latir. E a tarde se arrastava, pesada como uma dívida antiga, recusando-se a virar noite — talvez porque até a escuridão, àquela altura, soubesse que não havia mais nada de novo para escurecer ou esquecer.

Alfredo Behrens Atril press
Alfredo Behrens alcançou o grau de Ph.D. pela Universidade de Cambridge. Ele ensinou Liderança nas melhores escolas de gestão e foi publicado ou premiado por Harvard, Princeton e Stanford. Alfredo tem quatro filhas e, com a sua mulher Luli Delgado, mora no Porto, Portugal, desde 2018. Alguns dos seus livros podem ser adquiridos através da Amazon. alfredobehrens@gmail.com

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