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Gente que Cuenta

Setas e mapas,
por Luli Delgado

Flechas y mapas Atril.press
Fotografía: Stanislav Kondratiev
Fuente: https://www.pexels.com/

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        Eu, para me perder, não tenho nem a culpa. Minha amiga me disse onde era e me explicou como chegar, mas eu fiz um desvio para comprar uma lembrancinha para ela e, logo depois, passei para a categoria de “oficialmente perdida”.

Meu problema com os aplicativos de localização é que eu não os entendo; nunca sei para onde a setinha está apontando. Sou da época do “na segunda rua, onde fica o banco, vire à direita”. Coisas assim.

Vi um rapaz sentado em um murinho e, bem ao estilo de Lulucinha, me aproximei e perguntei se ele sabia onde ficava o lugar para onde eu estava indo. Ele pegou o celular, procurou e, sem que eu esperasse, me disse: “Venha comigo, eu te levo”. Começamos a caminhar e ele me contou que estava sentado no tal murinho porque estava esperando a namorada sair do médico. E, enquanto caminhávamos, continuou contando. Ele é do interior e veio ao Porto para trazer a namorada à consulta. “Nós dois temos 25 anos e somos namorados desde os 17. É que a gente prefere como as coisas eram feitas antigamente. Um único amor, nada de morar junto e, quando chegar a hora, a gente se casa e forma uma família. Nada de ficar por aí de bar em bar procurando aventura, nem perdendo tempo em festa”.

Eu, enquanto isso, subia como podia uma escada que não acabava mais — e que, no fim das contas, era desnecessária —, e o ouvia cada vez mais convencida de seus argumentos. Calculamos as idades e vi que sou mais velha que os pais dele, que seguiram o mesmo padrão e estão juntos até o dia de hoje.

Deste lado de cá da trajetória, confesso para vocês que pular de galho em galho acaba sendo tempo perdido. Claro, a gente tem que se refugiar no argumento das experiências acumuladas e essas coisas, mas me pego imaginando como teria sido se o senhor desta casa e eu tivéssemos seguido esse padrão. Teríamos conseguido? Teria sido possível? Definitivamente, ainda penso com mais agilidade do que caminho, e todas essas coisas passavam pela minha cabeça enquanto o jovem falava e eu o seguia. Por fim, disse a ele que não existe receita certa para decisões pessoais e que, se ele e a namorada se sentiam bem e estavam de acordo, ninguém tinha nada a ver com isso.

No fim das contas, nos despedimos na entrada do prédio da minha amiga e me lembrei da minha amiga Luciana, que dizia que morria de medo de que, um dia, um dos filhos resolvesse virar padre…

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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