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Gente que Cuenta

Resiliência, por Luli Delgado

Euphorbia milii Atril press

Euphorbia milii (Coroa-de-cristo). Ilustração botânica gravada a mão por Sydenham Edwards para a Curtis’s Botanical Magazine, 1829. Emblemático exemplo de resiliência vegetal: seus espinhos afiados protegem as reservas de água em períodos de seca extrema, coroados pelo triunfo do seu florescimento.

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        Ninguém contou ao neurocientista Boris Cyrulnik (1937). Como a tantas crianças judias durante a Segunda Guerra Mundial, coube a ele viver, com apenas seis anos, os horrores nazistas. Tentem imaginar por um momento onde vocês estavam aos seis anos e o que uma experiência assim teria significado para o resto de suas vidas.

Sobreviveu como pôde, estudou e, hoje em dia, etólogo (segundo a RAE: «Estudo científico do caráter e modo de comportamento do ser humano») e neuropsiquiatra, é considerado um dos pais da chamada resiliência, palavra tão na moda ultimamente.

Segundo explicou em uma entrevista recente ao El País de Madri, o termo foi cunhado pelos agricultores — quem diria — ao observar o comportamento das plantas durante fases de calor extremo. Para evitar que a pouca água que lhes resta evapore, as flores se fecham em si mesmas. Elas se retraem, interrompem temporariamente seu florescimento para poupar energia e, se o rigor do clima se prolonga, modificam sua própria estrutura até desenvolver espinhos para proteger o essencial. É um mecanismo radical de sobrevivência: retrair-se não é render-se, mas resistir ao embate.

Dessa metamorfose biológica originou-se o termo que a RAE define como: «Capacidade de adaptação de um ser vivo frente a um agente perturbador ou a um estado ou situação adversos». Bastante parecido, na verdade.

Os brasileiros, que para tudo encontram uma expressão, chamaram isso de “dar a volta por cima”, algo como passar por cima da adversidade e sair vitorioso.

O cientista e compositor Paulo Vanzolini escreveu uma canção com esse mesmo título, na qual uma de suas estrofes diz: «Reconoce a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima». Uma joia que mais abaixo vocês encontrarão na voz de Maria Bethânia, junto com a letra original. Tornou-se uma espécie de hino para qualquer um que precise superar alguma contrariedade ou tropeço.

Em algum momento, alguém fez um documentário sobre Vanzolini e, quando ele falou de sua criação, disse — palavras mais, palavras menos — algo muito importante: «O crucial não é apenas superar o que tem que ser superado, mas reconhecer a queda».

Mais ou menos o que fazem as flores quando se retraem e se protegem para preservar o pouquinho de água que lhes resta. Às vezes, é necessário…

Volta por cima Atril press

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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