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Gente que Cuenta

Leonor,
por Luli Delgado (port)

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“Leonor viveu com toda a plenitude de que foi capaz, venceu a luta contra o câncer duas vezes e seguiu em frente, sempre em frente…”

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        Não me lembro de quando ela começou a escrever para o Atril, porque a minha memória se lembra dela desde sempre. Tampouco levo em conta as vezes em que me agradeceu pela obra de arte que escolhi para o seu texto, ou as vezes em que me disse que, para ela, escrever era um desafio semanal e ler cada edição era a companhia do seu café da manhã de domingo.

Ela se preocupava muitíssimo caso sobrasse ou faltasse algo em seu texto.

“Leonor, fique tranquila, nós vamos revisar.”

E, entre uma entrega e outra, acabamos nos tornando amigas. Nós, mulheres, somos assim. Os homens podem passar anos se conhecendo, mas nem sequer sabem quantos filhos o outro tem. As mulheres, por outro lado, logo no segundo encontro já sabem os nomes da família inteira, o que fazem e o que deixam de fazer. Enfim, a conexão é muito mais direta e com a Leonor não foi diferente: a primeira comunhão da neta, a nova faixa de judô (ou terá sido caratê?) do neto mais velho, a chegada dos bebezinhos que nasceram há pouco.

Foi pelo batizado de um deles que ela foi para a Espanha. E foi lá que ela se sentiu mal. Deve ter se sentido malíssimo com as suas dores e, capaz até que por pura consideração para não incomodar em terra alheia, ela, que sempre foi de ajudar, de não contar tristezas, de “não quero estragar o Natal de ninguém”, como me disse uma vez.

Também me contava, com todo o carinho possível, sobre o seu falecido marido, o seu inglês amado, a razão da sua enorme saudade. Aprender a viver sem ele foi talvez a sua dor mais profunda, mas, mesmo assim, ela foi tão generosa que se juntou a um grupo de apoio a pessoas na mesma situação e, de consolada, passou a consolar.

Sua última batalha contra a tristeza foi a decisão de vender a casa em que ambos haviam vivido, desmanchar o que foi construído ao longo de tantos anos e procurar um apartamento de dois quartos: “um para mim e o outro para os netos, para quando quiserem dormir na casa da vovó”.

Era carinho, era vontade de ajudar onde fosse preciso, era desfrutar da poesia e de longas caminhadas com os amigos, especialmente com o Pollo. Não cheguei a saber o seu nome verdadeiro, mas soube da sua amizade profunda.

Leonor viveu com toda a plenitude de que foi capaz, venceu a luta contra o câncer duas vezes e seguiu em frente, sempre em frente.

Vou sentir muito a falta dela, porque, além de ser uma das colaboradoras mais pontuais, era minha amiga. Não chegamos a nos conhecer pessoalmente, mas isso também não importou muito: nos uniu essa amizade afetuosa que construímos através da tela e da edição. Havia confiança; ela me contou e eu lhe contei coisas com o tradicional “não conte a ninguém”, como se fosse preciso dizer.

É por isso que hoje escrevo sobre ela: para lhe agradecer, para demonstrar o meu carinho, para mandar as minhas condolências aos seus amigos, irmãos, filhos e netos e, bem, para finalmente tentar acreditar que ela já não está mais entre nós, que é a parte que tem sido mais difícil para mim.

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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