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Gente que Cuenta

No grito,
por Alfredo Behrens

Eugene Laermans Atril press
Eugène Laermans,
Final do outono, 1899
Fonte: https://commons.wikimedia.org/

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        Ao completar cem anos, ela celebrou o fato de ser vinte anos mais velha que o marido, que mal havia conseguido chegar aos noventa. Ele pedia desculpas pela diferença todas as manhãs, como se a idade fosse um erro de aritmética-

Então, ele adoeceu.

Seus sintomas eram peculiares. Toda terça-feira, ele perdia uma década. Na quinta-feira, insistia que o teto virado tapete. Os médicos receitavam guarda-chuvas, mas apenas para os móveis, contra os quais ele levantava a perna direita e se aliviava, como o cachorro Totô.

Ela o observava com uma impaciência crescente, suspirado que “A gente chega ao centenário esperando menos responsabilidades, não mais.”

Foi assim que ela o acomodou em uma casa de repouso respeitável, onde os corredores faziam curvas educadas em esquinas que ainda não haviam sido construídas. As enfermeiras falavam exclusivamente no tempo futuro. As refeições chegavam ontem. Os visitantes precisavam obter permissão de sua própria infância.

Finalmente livre, ela viajava compulsivamente. Bebia champanhe em desertos onde peixes negociavam hipotecas. Jogava em cassinos onde as roletas giravam continentes em vez de números. Certa vez, ganhou o Oceano Pacífico e o perdeu imediatamente para um flamingo canhoto que alegava imunidade diplomática.

Chegavam cartões-postais de lugares que negavam sua própria existência.

Enquanto isso, o velho melhorava de forma espetacular. Livre da preocupação dela, recuperou as décadas perdidas, adotou três netos invisíveis.

Anos mais tarde, encontraram-se por acaso em uma estação ferroviária onde nenhum trem parava, pois já haviam chegado.

“Você envelheceu bem”, disse ele.

“Espero que sim”, respondeu ela. “Tenho praticado.”

O Totô os cheirou e não os reconheceu.

Todos concordaram que aquilo resolvia a questão perfeitamente.

Alfredo Behrens Atril press
Alfredo Behrens alcançou o grau de Ph.D. pela Universidade de Cambridge. Ele ensinou Liderança nas melhores escolas de gestão e foi publicado ou premiado por Harvard, Princeton e Stanford. Alfredo tem quatro filhas e, com a sua mulher Luli Delgado, mora no Porto, Portugal, desde 2018. Alguns dos seus livros podem ser adquiridos através da Amazon. alfredobehrens@gmail.com

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