
Um belo assombramento, c. 1924
Um belo assombramento
Fonte: https://cherrrydreamland.tumblr.com/
Moram na mesma casa, mas já não vivem na mesma hora. Foi acontecendo devagar, como envelhecem as coisas boas. Ele adiantou o relógio do corpo sem consultar ninguém: o jantar às seis, mais tarde o sono chegando junto com os passarinhos que se aquietam no entardecer. É o canto miúdo dos tico-ticos que o embala.
Ela pertence à noite como sempre pertenceu: lê até tarde, conversa com a casa às escuras. Ele adormece dorme de janelas abertas com o sol ainda morno na parede; ela chega ao seu tempo horas depois, como que atravessando o Atlântico doméstico.
De madrugada os papéis se invertem. É ele quem desperta com a primeira claridade, quando os passarinhos retomam a conversa. No terraço, sob a brisa fria da noite ainda presa no ar, toma o café sozinho. Escreve até a fome interromper, depois volta escrever até a segunda refeição, observando os pássaros pequenos cruzarem o quintal sem destino aparente. Mais alto, as gaivotas grasnam — algumas indiferentes, outras, voam mais baixo como se ainda guardassem rancor de amores antigos, círculos teimosos sobre o mesmo pedaço de céu.
Sentiria a solidão sem disfarce, não fosse o par de sandálias vermelhas dela, debaixo do aparador, esperando, com a paciência dos objetos, para voltar a ser calçadas pelos seus pés de princesa mesmo.
Prepara então o café dela. Corta a fruta no mesmo tamanho de sempre. Ela aparece enrolada no sono, e ele escuta os sonhos que ela traz — fragmentos soltos, entre o travesseiro e a xícara. Não interrompe, apenas recebe.
Encontram-se assim, todas as manhãs, como quem desce de voos diferentes no mesmo aeroporto. E à noite partem outra vez, cada um para o seu fuso — não com tristeza de despedida, mas com a alegria de quem já sabe: há amanhã.
Porque ao envelhecer juntos, descobriram sem nunca dizê-lo, não é viver na mesma hora. É garantir que, a qualquer hora, haja alguém acordado para escutar a casa respirar.