
Retrato do pai do artista, 1630
Fonte: https://commons.wikimedia.org/
Durante anos vivi numa espécie de limbo suspenso. Lembro-me exatamente dessa época em que íamos comer e, ao chegar a conta, eu hesitava. Olhava para a bandeja de plástico sobre a mesa, olhava para o meu pai e não sabia se já me correspondia a mim tirar a carteira. O dia em que finalmente me antecipei, deslizei o meu cartão e paguei sem hesitar, senti um estalido silencioso dentro de mim. Foi o primeiro marco real da minha maturidade: já não era o protegido, mas sim o provedor.
O tempo, no entanto, é um ilusionista trapaceiro. Passou depressa, envolto no vertigem dos relacionamentos, das convivências e dos filhos que foram nascendo deles. Ocupado em criar e sustentar, não tive tempo de me olhar ao espelho. Acreditava que envelhecer era um processo abstrato que acontecia aos outros, até àquela tarde no Metro. A carruagem ia cheia, segurei-me ao varão e um rapaz com auscultadores olhou para mim, levantou-se de golpe e ofereceu-me o seu lugar com um gesto respeitoso. Fiquei gélido. O meu corpo não me doía, mas aos olhos do mundo eu já pertencia a outra categoria.
Hoje dei o passo seguinte e inscrevi-me num curso de ginástica para seniores. Enquanto fazia a fila sob a luz fluorescente do ginásio, olhei em redor. Eu não era o mais velho do grupo, mas ao ver tantos corpos letárgicos, a arrastar os pés como verdadeiros zombies, invadiu-me uma velhice repentina e incómoda. Senti uma rejeição visceral, um desejo de sair a correr, mas não me mexi.
No meio dessa estranheza quase irreal, compreendi com uma clareza avassaladora que esse era exatamente o lugar onde devia estar. Aceitá-lo não doía, mas deixava um sabor amargo e desorientador na boca, inclusive algo divertido, ou será já o Alzheimer?