Gente que Cuenta

Caetano,
por Luli Delgado

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Show de Caetano Veloso no Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, Porto Portugal
Foto da autora

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        Há duas certezas no Brasil: a de que um dia vamos morrer e a de que quem canta, seus males espanta. Diferente de outros países, nós nos abrimos generosos a qualquer ritmo; bastou soar, já ficamos encantados. Foi a primeira coisa que ficou clara para mim quando me mudei para lá: se você quer entender o país, aprenda a cantá-lo. O Brasil respira música e vive através dela.

Tampouco existem gerações musicais. Caetano escreveu versos incrustados na psicologia brasileira. Quem nunca repetiu que “de perto ninguém é normal” ou que “ou você opta pelo inseto ou pelo inseticida”? Ainda hoje essas verdades são cantadas em qualquer barzinho; sua obra é patrimônio nacional e não tem data de validade.

Ele mesmo imortalizou em seu hino a São Paulo aquilo de que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Mas a genialidade de Caetano reside justamente nisso: ele conseguiu quebrar o egoísmo desse espelho para se tornar o reflexo de toda uma nação, unindo as pontas mais contraditórias de sua cultura.

Ontem à noite, ele se apresentou para mais de sete mil pessoas em um estádio lotado. A idade do público surpreendeu: muita gente madura, mas também muitíssima gente jovem. Caetano foi a vanguarda dos anos 60 e 70: resistência, exílio e prisão. Em seu livro Verdade Tropical, ele conta que quando a polícia foi levá-lo preso, ainda não dimensionava a gravidade do que estava por vir. Na delegacia, perguntaram por Gilberto Gil e ele, ingenuamente, respondeu que o havia deixado em seu apartamento “namorando”. O episódio ficou como o reflexo da total inocência, informalidade e falta de solenidade com que os jovens artistas lidavam com o terror do regime. Não sabiam que chegaria o impensável exílio, a perseguição. Só o que importava para eles era a música.

Hoje, aos 83 anos, Caetano tem uma energia que nos deixa de boca aberta. Já não escandaliza ninguém, mas os jovens continuam fascinados por ele. Para eles, é uma herança; para nós, representa o nosso próprio protagonismo passado. Caetano nos traz sol e juventude, de quando o mundo era nosso: grande, de tangas e Coca-Cola para nos bronzear.

Ontem à noite, milhares de pessoas com sonhos diferentes se encontraram para reviver uma música que nos toca a alma. O show demonstrou que a tristeza nem pode pensar em chegar quando ele está no palco. Ao ritmo de Odara, jovens e nostálgicos fomos uma só voz, refletidos no mesmo espelho: enquanto Caetano cantar, o mundo faz sentido.

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Luli Delgado é uma jornalista venezuelana com mestrado em Cinema e Vídeo pela American University em Washington, D.C. Foi Diretora Executiva da Fundação Andrés Mata no El Universal em Caracas e Gerente do Centro de Documentação da TV Cultura em São Paulo. É autora de diversos livros e artigos. delgado.luli@gmail.com

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