
Imagem gerada pela IA
Há uma praça perto daqui onde os aposentados passam as manhãs como se o tempo fosse uma substância que precisa ser gasta com cuidado, em pequenas doses. Alguns alimentam pombos com uma generosidade que nunca tiveram com seus subordinados. Outros jogam cartas em mesas de cimento, com a concentração de quem um dia assinou contratos importantes. No bar da esquina, um grupo ocupa as mesmas cadeiras todos os dias, com uma fidelidade que seus empregos nunca mereceram. Bebem devagar. Falam do que já passou.
Entre eles há um que não bebe.
Está sentado com os outros, divide a mesa e o ar da tarde, mas está em outro lugar. Enquanto os demais gesticulam com os copos, ele escuta com aquela quietude de quem tem para onde voltar. Seus companheiros não o entendem bem. Nunca entenderam direito o que ele faz na garagem todas as manhãs, o que significa enfiar uma escada dentro de uma garrafa. Mas o respeitam. Há algo nele que não pede licença para ser o que é.
Foi ele quem me contou, sem se gabar, quase de passagem: que consegue construir uma escada em espiral dentro de uma garrafa de vinho, com ferramentas que ele mesmo projetou, com uma paciência que não aprendeu com ninguém. Me mostrou uma fotografia no celular — a madeira clara, os degraus perfeitos, o vidro verde ao redor como uma redoma do tempo. Perguntei como. Ele sorriu daquele jeito que têm as pessoas que sabem fazer algo que os outros nem conseguem imaginar.
Me convidou para a sua garagem. Vou lá.
Mas enquanto isso fico com aquela imagem do bar, com aquele grupo de homens que foram algo e agora são isso, e não sei bem o que pensar. Não quero ser cruel — a crueldade é fácil de longe. Mas às vezes me pergunto o que sobra de uma vida quando se tira o trabalho que a organizava, a urgência que a justificava. Os pombos comem. As cartas caem. O vinho acaba e se pede outro.
Ele, porém, volta para a garagem. Dentro de uma garrafa, uma escada sobe em direção a lugar nenhum. E isso, por razões que não sei explicar direito, me parece suficiente.