Gente que Cuenta

Do qual carrossel você é? – Alfredo Behrens

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Le Cheval de Carrousel
Constant Permeke
1923

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As terras de imigrantes são como um carrossel. Elas recebem passageiros dos mais diversos países e dão voltas com eles até ficarem tontos. Aconteceu comigo. Em uma dessas rodadas, o espanhol ganhou outros sotaques: vejam os sotaques com que o espanhol é falado nas Américas. Um amigo me disse que meu espanhol ainda estava bom, embora tivesse um leve sotaque de aeroporto.

Um escritor me explicou que o sotaque mexicano tem muito nahuatl. O de Buenos Aires tem muito de italiano, que também está muito presente no português falado em São Paulo. Sem dificuldades em ambas as cidades você encontrará uma boa pizza.

Quanto à vida, de tantas voltas que dá, esquecemos nossas raízes durante os passeios nos carrosséis pelas terras dos imigrantes. Chega o momento em que poucos passageiros no carrossel têm a sorte de se lembrar de seus ancestrais, além de seus avós.

Fica mais complicado se você emigrar de um país de imigrantes para outro. Até o acento do Barbé, o sobrenome da minha mãe, se perdeu no Brasil. Além disso, em meus documentos brasileiros minha mãe for registrada como Madalena, como se diz em português, em vez de Magdalena como se diz em espanhol. Ainda por cima, onde se fala o português, os sobrenomes maternos vem em primeiro lugar, enquanto que em espanhol vem por último. É por isso que às vezes me chamam de Barbe. Nos aeroportos, tenho de prestar muita atenção para o caso de Barbe, o meu outro eu, ser chamado para entrar no avião.

Mas é assim. Ah! E o Behrens em meu sobrenome é de um alemão que desembarcou em Montevidéu na década de 1860 e se casou bem. Um descendente dele conviveu por um tempo com minha avó paterna, de sobrenome Le Bas, ela por sua vez descendente de huguenotes franceses, via ilhas inglesas do Canal da Mancha. Quase saí de Le Bas. Mas eu assino Behrens, o estranho é que meu pai está enterrado no cemitério britânico em Montevidéu, ainda preciso entender isso. Às vezes penso que minha vida teria sido mais fácil com o sobrenome da minha avó paterna. Mas com certeza o povo me chamaria de Lébas, como chamam a colina que fica onde a fazenda dos seus ancestrais paternos no Uruguai. Mesmo assim, Lébas seria mais fácil do que corrigir, porque quem fala espanhol ouve Pérez quando falo Behrens. Pior no telefone. Mas ainda estou no carrossel e em Portugal, onde agora moro, o Behrens soa apenas tão estranho que ninguém o confunde com outra coisa. Até por isso sou feliz aqui.

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Alfredo Behrens é doutor pela Universidade de Cambridge, leciona Liderança para as escolas de negócios da FIA em São Paulo e IME em Salamanca, e é Presidente do Conselho Estratégico da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, onde reside.
Alguns de seus livros podem ser adquiridos na Amazon.
ab@alfredobehrens.com

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