Gente que Cuenta

Um ator – Pedro Tebyriçá

Roberta F. gallery
2008

Nada parecia ser real, os amigos, as mulheres, o orgasmo, tudo era representação. As ruas, o banco, o caixa do banco, não eram mais que cenários e representação. Só lhe restava ser ator, mas como representar a representação? Só conseguia estampar na face a expressão desolada de quem não encontra nenhum personagem sob o papel, como uma criança desapontada ao perceber que a caixa do presente que recebeu está vazia.

Papel, papel, sempre um papel. Haveria alguma fala não escrita previamente?

O desconcerto fez dele um grande ator. Não precisava de seu corpo, que largado tornou-se obeso, não precisava decorar as falas, porque o que dizia não tinha importância. A pungência de seu rosto abandonado e seus murmúrios queimando em fogo brando eram de uma eloquência cortante.

Seus olhos por fim se fecharam. O horror, o horror, foram as suas últimas palavras.  Sua face desolada, em eterno retorno, habita agora as antologias.

O horror, o horror.

Nascido na cidade do Rio de Janeiro em 1955, formou-se em economia, atualmente é servidor público federal, dedicando-se paralelamente à literatura e as artes plásticas, já tendo realizado exposições no Brasil e no exterior. Começou a escrever aos cinquenta anos, inclinando-se mais para o texto curto, notadamente contos. Em 2019 lançou o Contos (nem tanto) Contidos pela Editora 7 Letras disponível para venda no site da editora (www.7letras.com.br).
ptebyrica@gmail.com

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