Gente que Cuenta

“O elogio à mediocridade”, por Fernando Carmino Marques

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Rogier van der Weyden
Hombre con libro en manos (detalle)
1440-1449

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Na recente entrevista concedida ao jornal online Vanguarda, J.C. Smith, prestigiado autor de The praise of mediocrity, mostrou-se surpreendido pelo sucesso alcançado em tão pouco de tempo no nosso país pelo seu mais recente livro. Interrogado também sobre a insidiosa pergunta do jornalista de A Razão, Pena Marques (conhecido pelo tom provocador das suas intervenções nas conferências de imprensa), o premiado autor limitou-se a repetir o que em diversas ocasiões e circunstâncias dissera já: “Que seriamos nós sem a mediocridade”.

Entre colegas, representantes da imprensa e agências noticiosas do país, críticos e universitários, foi indescritível o espanto causado pela insolência das palavras do inoportuno jornalista, quando, em ambiente geral de aprazível cordialidade, se dirigiu ao renomado escritor e lhe perguntou se se sentia elogiado pela mediocridade dos seus leitores. Ao que J.C. Smith, autografando um exemplar, se limitou a lembrar que o sucesso do seu livro se deve certamente ao inquestionável prazer que o leitor encontra ao verificar que não está só neste mundo. Pena Marques calou e engoliu a serpente venenosa que anda sempre com ele e o leva a fazer perguntas inconvenientes, torpes tentativas de perturbar o bem-estar de todos.

Instantes depois, para os olhos de quem bem olhou, o mordiscar do lábio inferior, o breve encolher de ombros e o ligeiro movimento da cabeça, descaído para o lado esquerdo, permitiam verificar que Pena Marques anuíra e se incluíra entre os demais leitores de J.C. Smith, quando, cabisbaixo, se aproximou do famoso escritor e lhe pediu que autografasse com especial atenção o exemplar de The praise of mediocrity que acabava de adquirir.

Captura de Tela 2022 03 03 às 23.55.42Fernando Carmino Marques é doutor em letras pela Universidade de Paris IV – Sorbonne. Publicou vários estudos sobre temas e autores portugueses e brasileiros, dos séculos XVI, XIX e XX. Traduziu e editou o estudo inédito de Pierre Hourcade sobre a poesia de Fernando Pessoa, A Mais Incerta das Certezas, Itinerário Poético de Fernando Pessoa (Coleção “Ensaios” sobre Fernando Pessoa, Tinta-da-china, Lisboa, 2016). Como ficcionista publicou Sobre outra coisa ainda (13 short stories) 2019 e Neste sonho que sou de mim, contos, 2021.

carmino@ipg.pt

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