Gente que Cuenta

Ingenioso, não louco, por Alfredo Behrens

www.atril .press Don Quijote
Honore Daumier,
Don Quixote y Sancho Panza, s.f.

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Cervantes escreveu que Dom Quixote era ingenioso não louco. Ele poderia, sim, fazer “loucuras discretas”, mas isso não significa que ele era louco.

Que suas loucuras fossem discretas significaria hoje que seriam contidas ou prudentes. Mas, atacar moinhos de vento não seria um comportamento contido, muito menos prudente, mas poderia ser interpretado como um comportamento quem sabe até jovial, ou mesmo juvenil.

É que Cervantes seguia a lógica de Erasmus em seu Elogio da Loucura, um livro que poderia muito bem ter sido traduzido como o Elogio do Disparate. Talvez a loucura de Dom Quixote seja apenas um erro de tradução do latim, a língua em que Erasmo escreveu Encomium Moriae.

Por exemplo, apenas num arroubo disparatado nossos pais poderiam nos ter gerado. Porém, não teria sido um ataque de loucura, mas de frivolidade, de alegria juvenil, exatamente o que Moriae queria dizer. Daí a tradução inglesa do livro Erasmus se chamar In Praise of Folly, onde Folly seria o disparate.

Em outras palavras, louco não seria Dom Quixote, mas o tradutor de Erasmus, e do que mais? Porque mais tarde Kafka veio dizendo que o herói do Quixote não seria ele mesmo, mas Sancho, que colocou todos aqueles disparates na cabeça de Dom Quixote, só para livrar ele mesmo de seus próprios demônios.

Fico com o arroubo disparatado dos meus pais, antes que me prendam em um manicômio.

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Alfredo Behrens  é doutor pela Universidade de Cambridge, leciona Liderança para as escolas de negócios da FIA em São Paulo e IME em Salamanca, e é Presidente do Conselho Estratégico da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, onde reside.
Alguns de seus livros podem ser adquiridos na Amazon.
ab@alfredobehrens.com

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