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Meu pai, por Ricardo Martins

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Usava a roupa do dia a dia quando o vi pela última vez, quando seu corpo foi descendo pelo elevador, para ser incinerado.

Camisa simples e calça.  Geralmente de tergal. Coisa bem popular …. não me lembro de ter visto meu pai comprar uma roupa. Lembro de quando ganhava meias … lenços.  Minha mãe,  tendo eu como entregador, sempre dava meia ou lenço para ele.

Devia também comprar as camisas e calças.

Meu pai tinha sua vaidade.  Me contava, orgulhoso, que quando jovem fazia as unhas no barbeiro. Todo mês. De início, fiz o costumeiro comentário machista … ele pouco se abalou. Era moda.

Sempre andava de terno e gravata. Tenho uma foto dele com minha mãe. Em 1957 e 1958. Clicados por algum fotógrafo anônimo,  no Viaduto do Chá,  em São Paulo. Ela, contrariada pelo fotógrafo oportunista e ele, sorriso aberto.

Vaidoso.

Nunca usou um jeans. Até hoje não sei se não gostava ou se pouco se importava.

Trabalhava na rua. De início, como vendedor de letreiros de lojas. Orgulhava-se de dizer que havia vendido o letreiro da loja Mappin, no Centro de São Paulo. Sinceramente, não sei se é verdade  …. mas gosto de pensar que poderia ter sido.

Depois, virou motorista,  foi trabalhar com uns tios dele e … conflitos de família. Seriam muitos parágrafos de contrariedades …

Nas minhas férias,  ia com ele trabalhar.  Dia inteiro andando de carro. Uma picape Ford F-100, anos 1960. Inesquecíveis.

E com isso em mente, lembro de sua última imagem, usando a camisa de calça, corpo descendo pelo elevador, para ser incinerado.

Sinto que morreu com tristeza.

Ele sempre foi alegre.

Mas uma das últimas imagens que tenho dele é uma nuvem de tristeza em seu rosto.

Ele merecia mais.

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Ricardo Martins, jornalista e pesquisador, com trabalhos para a Editora Abril, TV Cultura e Fundação Roberto Marinho.
ricardomarts@yahoo.com.br

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