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Ricardo Martins

Gal, por Ricardo Martins
74c, Ricardo Martins

Gal, por Ricardo Martins

leer en español Gal Costa povoou minha adolescência. Confesso que não foi tanto pelo estilo de música. Eu estava começando a descobrir o rock. Beatles, Led Zeppelin, Alice Cooper... Minha mãe vivia com um velho rádio à válvula ligado o dia inteiro em casa. E as músicas cantadas por ela gritavam nos meus ouvidos.  Anos 1970.  E ainda assistia suas apresentações em shows transmitidos pela TV. Em preto e branco. Gal gritava suas canções com aquelas vozes agudas. Ou as sussurrava quando sua voz se tornava macia.  Aquele bocão.  Aquele cabelão.  Aquele sorriso enorme ... O sorriso de Gal. Aquela sensualidade agressivamente libertária. Povoou minha adolescência. A despeito do rock. Penso que a minha história, em parte, está começando a desmoronar.  As referências estão indo...
Gal, por Ricardo Martins
Ricardo Martins

Gal, por Ricardo Martins

ler em português    Gal Costa pobló mi adolescencia. Confieso que no fue tanto por su estilo de música. Yo estaba empezando a descubrir el rock. Los Beatles, Led Zeppelin, Alice Cooper... Mi madre vivía todo el día con un viejo radio de válvulas encendido en casa. Y las canciones que cantaba gritaban en mis oídos. Corrían los años 70. También veía sus actuaciones en programas de televisión. En blanco y negro. Gal gritaba sus canciones con esas voces agudas. O las susurraba cuando su voz se volvía suave. Esa boca grande. Ese cabello. Esa enorme sonrisa... La sonrisa de Gal. Esa sensualidad agresivamente libertaria. Ella pobló mi adolescencia. A pesar del rock. Creo que mi historia, en parte, se está empezando a desmoronar. Se van las referencias. Uno de ellas hoy. Maña...
Meu pai, por Ricardo Martins
47a, Ricardo Martins

Meu pai, por Ricardo Martins

Leer en españolUsava a roupa do dia a dia quando o vi pela última vez, quando seu corpo foi descendo pelo elevador, para ser incinerado.Camisa simples e calça.  Geralmente de tergal. Coisa bem popular .... não me lembro de ter visto meu pai comprar uma roupa. Lembro de quando ganhava meias ... lenços.  Minha mãe,  tendo eu como entregador, sempre dava meia ou lenço para ele.Devia também comprar as camisas e calças.Meu pai tinha sua vaidade.  Me contava, orgulhoso, que quando jovem fazia as unhas no barbeiro. Todo mês. De início, fiz o costumeiro comentário machista ... ele pouco se abalou. Era moda.Sempre andava de terno e gravata. Tenho uma foto dele com minha mãe. Em 1957 e 1958. Clicados por algum fotógrafo anônimo,  no Viaduto do Chá,  em São Paulo. Ela, contrariada pelo fotógrafo opor...
Mi padre, por Ricardo Martins
Ricardo Martins

Mi padre, por Ricardo Martins

ler em português Llevaba su ropa de diario cuando lo vi por última vez, cuando su cuerpo bajaba por el ascensor para ser incinerado.Camisa y pantalón sencillos. Generalmente tergal. Cosa muy popular.... No recuerdo haber visto a mi padre comprar un traje.Recuerdo cuando le regalamos calcetines... pañuelos. Mi madre, conmigo de repartidor, siempre le regalaba calcetines o pañuelos.Debía también comprar camisas y pantalones.Mi padre tenía su vanidad. Con orgullo me dijo que cuando era joven se hizo las uñas en la barbería. Cada mes. Al principio, hice el habitual comentario sexista... no se inmutó. Era la moda.Siempre vestía traje y corbata. Tengo una foto de él con mi madre. En 1957 y 1958. Tomada por un fotógrafo anónimo, en Viaduto do Chá, en São Paulo. Ella, molesta por el fotógrafo opor...
Pesar ou não pesar?, por Ricardo Martins
41a, Ricardo Martins

Pesar ou não pesar?, por Ricardo Martins

leer en españolAcordei tarde. Sol batendo na janela, abafando o quarto. Estômago ardendo. Corpo pesado. Bem pesado. Eu não devia ter negociado aquela porção. Acho que exagerei um pouco.Olha para a porta do banheiro. Como se estivesse a quilômetros de distância. Força uma perna para fora da cama. Depois, um pouco depois, a outra perna.Nisso o telefone toca. Após um resto de esforço,  senta-se na cama e o atende.O sujeito quer depositar um quilo e meio. Um quilo e meio! Ele pensa que sou um barril !? Não dá.  No máximo 950 gramas. Ele insiste. Tem de ir a uma festa e para a roupa que vai usar, tem de abrir mão de um quilo e meio.Não posso. Estou no limite. Ele abaixa paraum quilo e duzentas gramas. Respondo com um quilo. Ele tenta um quilo e cem. Fechado.Acertamos os detalhes do procedimento...
¿Pesar o no pesar?, por Ricardo Martins
Ricardo Martins

¿Pesar o no pesar?, por Ricardo Martins

ler em portuguêsMe desperté tarde. El sol golpeando la ventana, sofocando la habitación. Ardor de estómago, cuerpo pesado, bastante pesado No debería haber cambiado esa parte. Creo que exageré un poco, mira la puerta del baño como si estuviera a kilómetros de distancia. Fuerza una pierna fuera de la cama. Luego, un poco más tarde, la otra pierna. Entonces suena el teléfono. Después de un poco de esfuerzo, se sienta en la cama y lo atiende. El sujeto quiere depositar un kilo y medio. ¡Un kilo y medio! ¿¡Él piensa que soy un barril!? No es posible. Máximo 950 gramos. Él Insiste. Tiene que ir a una fiesta y por la ropa que se va a poner, tiene que renunciar a un kilo y medio. No puedo. Estoy al límite. Él baja a un kilo y doscientos gramos. Respondo con un kilo. Prueba un kilo y cien. Cerrado...
O feijão e Deus – Ricardo Martins
35b, Ricardo Martins

O feijão e Deus – Ricardo Martins

leer en españolReunião de família. Almoço.  Mesa retangular com seus participantes. Tios, tias, irmão, irmãs. Filhos. Filhas. Sobrinhos.Sentados eretos, aguardando que ele inicie a refeição.  O tio mais velho. O mais severo. O dono da casa. Meu tio.Tinha um olhar severamente conciliador.  Sentado na ponta da mesa, peito estufado, orgulhoso, corte de cabelo autoritário, aguardando sua esposa, minha tia, colocar a última travessa com arroz na mesa.Os outros participantes continuam na sua cacofonia familiar, risadas, gritos de crianças, talheres e copos. Conversas sem eira nem beira.Observo que meu tio, após ver minha tiasentar-se, apruma ainda mais o peito, avança para a travessa e pega sua porção.  E oficializa o início do repasto. E um murmúrio mandibular se inicia.Num determinado momento,...
Las caraotas y Dios – Ricardo Martins
Ricardo Martins

Las caraotas y Dios – Ricardo Martins

ler em portuguêsReunión familiar. Almuerzo. Mesa rectangular con sus participantes. Tíos, tías, hermano, hermanas. Hijos, hijas sobrinos.Sentado erguido, esperando a que comenzara la comida. El tío mayor. El más severo. El dueño de la casa. Mi tío.Tenía una mirada severamente conciliadora. Sentado al final de la mesa, pecho hinchado, corte de pelo autoritario y orgulloso, esperando que su mujer, mi tía, ponga el último plato de arroz en la mesa.Los demás participantes continúan con su familiar cacofonía, risas, gritos infantiles, cubiertos y vasos. Conversaciones sin trillar ni orillar.Observo que mi tío, después de ver a mi tía sentarse, endereza aún más el pecho, avanza hasta la fuente y toma su porción. Y oficializa el inicio de la comida. Y comienza un soplo mandibular.En un momento, m...
El balde, la mopa, el divorcio – Ricardo Martins
Ricardo Martins

El balde, la mopa, el divorcio – Ricardo Martins

ler em portuguêsEstaba arrodillado junto al cubo. En un esfuerzo por escurrir el paño del piso. No lo quería ni demasiado húmedo ni demasiado seco.Había una ciencia en ello.En todo hay una cierta ciencia. Esa ciencia que da un barniz de aprecio a las pequeñas tareas cotidianas. A tareas automáticas. Las cuales se llevan a cabo a través de media docena de sinapsis. Sin darnos cuenta de su principio, ni de su final.Instalé el paño uniformemente mojado, no empapado, en la escobilla de goma. Pero me saltaré la explicación científica de este acto. Te perdoné, querido lector.Mientras me preparo para darle el primer empujón a la fregona, se para frente a mí y declara:- Quiero el divorcio.Así, sin signo de exclamación. Como pidiendo cortar 350 gramos de queso en una panadería, mientras mira los bo...
O balde, o rodo, o divórcio – Ricardo Martins
33b, Ricardo Martins

O balde, o rodo, o divórcio – Ricardo Martins

leer en españolEstava ajoelhado próximo ao balde. Num esforço para torcer o pano de chão.  Não queria nem muito encharcado nem muito seco.Havia uma ciência nisso.Em tudo há uma certa ciência.  A tal ciência que dá um verniz de valorização às tarefas cotidianas, comezinhas. Às tarefas automáticas. Que se realizam por meio de meia dúzia de sinapses. Sem que se perceba seu início, tampouco seu término.Instalei o pano balanceadamente molhado-não-encharcado no rodo. Mas vou pular a explicação científica desse ato. Pouparei-te, caro leitor.Ao me preparar para dar o primeiro impulso do rodo com o pano acoplado em sua ponta sobre o piso, ela se coloca à minha frente e declara:- Quero o divórcio.Assim,  sem ponto de exclamação. Como se pedisse para cortar 350 gramas de queijo numa padaria, enquanto...
O Véu. A agressão. O grito – Ricardo Martins
32b, Ricardo Martins

O Véu. A agressão. O grito – Ricardo Martins

leer en españolEle a agarra pelo pescoço com uma só mão.  Seu cenho, franzido, raivoso. Ela, olhar assustado, indignado. Medo.E a empurra para trás. Rapidamente. Sem largar o pescoço dela. Atravessam o palco. Rápido.Essa violência representa a essência do espetáculo de dança "Punk Como Liberdade Emocional”, idealizado, coreografado, desenho de figurinos e interpretação de Mayara Machado.Digo "interpretado" pois a carga dramática, extremamente intensa, extrapolou a expressão do corpo pela dança.  Medo, raiva, violência, depressão, angústia, agressão, abuso, noiva, mãe foram ingredientes nesse retrato da violência contra a mulher.Uma violência a que atinge muitas mulheres dentro de seus lares ou nas ruas. Uma violência que se torna silenciosa por aqueles que ainda teimam em negá-la.Esse espe...
El velo, la agresión. El grito – Ricardo Martins
Ricardo Martins

El velo, la agresión. El grito – Ricardo Martins

ler em portuguêsÉl la agarra por el cuello con una mano. Su ceño, fruncido, enojado. Ella, mira asustada, indignada. Miedo. Y lo empuja hacia atrás. Con rapidez. Sin soltar su cuello. Cruza el escenario. Rápido.Esta violencia representa la esencia del espectáculo de danza "Punk Como Liberdade Emocional", idealizado, coreografiado, con diseño de vestuario e interpretación de Mayara Machado.Digo "interpretada" porque la carga dramática, sumamente intensa, extrapolaba la expresión del cuerpo a través de la danza. El miedo, la ira, la violencia, la depresión, la angustia, la agresión, el maltrato, la novia, la madre fueron ingredientes de este retrato de la violencia contra la mujer.Una violencia que afecta a muchas mujeres dentro de sus casas o en la calle. Una violencia que se silencia para ...