Gente que Cuenta

O Memorioso – Roberto Managau

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Tenho um velho e querido amigo em Montevidéu que me lembra muito o personagem de um conto de Borges, que considero inestimável e recomendado para quem não o conhece, “Funes, o Memorioso“. Dentro da singularidade desse amigo, é relembrar momentos, episódios e situações passadas, com absoluta precisão de datas e detalhes, e assim costuma comentar: “às vezes, até eu me admiro!!”.

O conto começa com a narração de um jovem argentino visitando a cidade de Fray Bentos, capital do departamento de Río Negro, no Uruguai. Montado a cavalo com seu primo uruguaio, eles se deparam com Ireneo Funes, um personagem local, vestido à usança gaucha, de rosto taciturno e mestiço que, quando lhe perguntaram a hora, respondeu com precisão cronométrica. O narrador depois menciona 3 encontros únicos com Funes, mas recolhe vários testemunhos de quem o conheceu, como o fictício com o poeta nativista uruguaio Pedro Leandro Ipuche, que se refere ao personagem com o soberbo epíteto de “Um Zaratustra ‘criollo’ e vernacular“.

Um acidente em um adestramento de cavalo, atingiu-o na cabeça e assim ficou Funes, prostrado e aleijado em seu modesto quarto, morando com sua mãe. No entanto, sua mente se torna infalível e as memórias vinham à tona de forma vertiginosa ao ponto que para ele, suas pernas afetadas não eram nenhum empecilho. Funes passa seus dias imerso em sua memória e se torna uma enciclopédia falante: latim, espanhol, números, fatos, datas e horas são lembrados e recitados de forma prodigiosa e verdadeira …

Voltando à nossa realidade, Borges teria se baseado em um personagem da época, um estudante chamado Dagoberto Arriaga, natural de Salto (Uruguai), que sofrera um acidente com um cavalo, perdera a mobilidade embora com o raro talento de reter tudo o que aprendia desde que era criança na escola.

Tanto Borges quanto seu amigo Bioy Casares eram apaixonados pelo Uruguai. Ambos os escritores deixaram pendente, como declararam em alguma ocasião, não ter conseguido escrever algo em língua “uruguaia”.

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Roberto Managau uruguaio, reside em São Paulo desde 1982.
Dirige um espaço de arte uruguaia e é apaixonado por futebol,  guerras mundiais e outras curiosidades da história.
rj.managau@gmail.com

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