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Por favor, majestade, por Pedro Tebyriçá

Pele Atril press
Pelé à sua llegada ao Brasil
Bruno Santos / Folhapress

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   Eu trabalho no aeroporto internacional do Rio de Janeiro, recebendo os viajantes que ora retornam, ora vêm conhecer. Dali, instalado debaixo de uma câmera de reconhecimento facial, eu vejo o mundo. Vejo turistas, jovens, velhos, acompanhados, sozinhos, brancos, negros, amarelos, que trazem em si o desejo dos trópicos. Vejo jovens mães empoderadas pelo sentimento apolíneo da maternidade, contrapondo os seus rebentos à grandeza de todo o universo. Vejo crianças dando seus primeiros passos desgarradas de seus pais, com os olhinhos arregalados de tanta curiosidade e a aura cândida e inocente de quem ainda não conhece a crueldade do mundo. Vejo os que regressam em farrapos, triturados pelo sonho não alcançado. Vejo ex-prostitutas, que com a força perene de suas vaginas, dobraram o velho mundo conquistando respeito e maridos alemães. Vejo travecos versados em línguas diversas, praticadas em latejantes varas estrangeiras. Vejo mecânicos, cinegrafistas, marinheiros filipinos, imigranrtes chineses. Vejo jogadores de futebol desconhecidos que regressam de países desconhecidos com o seu pezinho de meia abastecido. Vejo celebridades (o Roberto Carlos pediu para usar o nosso banheiro – deve ser difícil para um astro usar um mictório público). Vejo tenistas famosos (o Nadal é mais baixo que eu). Vejo atores, atrizes, super-heróis (posso dizer que conheço a identidade secreta do homem aranha). Não faz muito tempo avistei vindo na minha direção ele que não precisa de nenhuma engenhoca para ter a sua face reconhecida até no mais remoto ermo do planeta. Empurrado numa cadeira de rodas, visivelmente debilitado pela doença: Pelé! Quando se aproximou de mim, fiz-lhe uma referência indicando o caminho e disse apenas: Por favor, majestade. Na mesma hora ele sinalizou para que parassem de o empurrar e me estendeu a mão (a mim!) em cumprimento. E mais não digo porque os meus olhos marejam.

Por favor, majestade, siga para a luz, esteio de toda a sua vida.

Pedro Tebyriçá 1
Nascido na cidade do Rio de Janeiro em 1955, formou-se em economia, atualmente é servidor público federal, dedicando-se paralelamente à literatura e as artes plásticas, já tendo realizado exposições no Brasil e no exterior. Começou a escrever aos cinquenta anos, inclinando-se mais para o texto curto, notadamente contos. Em 2019 lançou o Contos (nem tanto) Contidos pela Editora 7 Letras disponível para venda no site da editora (www.7letras.com.br).
ptebyrica@gmail.com

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