Gente que Cuenta

Sobre escola, afeto e reflexos – Fabiana Louro

 

 

 

La revue des écoles en 1878
Jan Verhas 1880

 

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Desde criança tenho questionamentos em relação aos moldes da educação formal. Como professora esses questionamentos foram intensificados. Problematizo os espaços físicos pouco acolhedores, a metodologia, a divisão dos horários em grade curricular. Grade? Estaríamos limitando e enjaulando nossa aprendizagem?
Sonho com uma escola mais livre, determinada pelo tempo de Kairós, do tempo “espiritual”, do tempo não linear. Porém estamos inseridos no tempo de Chronos, limitado e contado. Desejo uma escola com o tempo do corpo/vida e não do capital, com processos de aprendizagem e não disciplinas e conteúdos aos milhares. Estamos a formar seres humanos/máquinas para o mercado de trabalho explorar ou vidas humanas?
Durante minha experiência como professora de teatro recebi diversas manifestações de carinho dos meus alunos. Cartinhas, desenhos, declarações. A arte dentro da educação mobiliza os afetos.
Tem acontecido nos últimos anos no Brasil atentados contra a vida dentro de escolas. O último caso ocorreu em 2019 em uma cidade chamada Suzano. Foi um verdadeiro horror. Muitos dizem que isso aconteceu por falta de Deus. No entanto o que significa concretamente essa falta que alguns atribuem a Deus? Para mim essa “falta” é o reflexo de um sistema falido e violento no qual estamos inseridos, que produz famílias disfuncionais, crianças e jovens abandonados. Um sistema que nos cobra e nos adoece.
Eu acredito que a escola é um espaço para olhar, escutar e compartilhar. Um lugar para agir em afeto. Porém ela não pode funcionar e se organizar na lógica desse sistema caduco. Ela necessita urgentemente subverter esta ordem a fim de potencializar vidas.

É atriz, educadora, dançarina e cantora. Em sua trajetória estão a pesquisa em butô, dança pessoal, flamenco, videodança, música, haicai e poesia. Trabalhou em projetos de cidadania artística e na escola pública como arte-educadora de teatro, dança contemporânea e flamenco. Atualmente cursa mestrado em educação na UFPE, é diretora e atriz do Grupo Fuga de teatro e realiza narração de audiodescrição de livros e materiais didáticos, oficinas em educação e artes em escolas, eventos e plataformas digitais.

fabislouro@gmail.com

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